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Wilson Valentim Biasotto

Severino

27 Fev 2016 - 06h00
Wilson Valentim Biasotto


João Cabral de Melo Franco em “Morte e vida Severina” retrata o sofrimento de um retirante, Severino, nome tão comum no nordeste brasileiro, como o de Raimunda, que é homenagem a santa protetora das mulheres grávidas. Na introdução da obra João Cabral caracteriza muito adequadamente o personagem principal: “ O meu nome é Severino, / Como não tenho outro de pia. / Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, / deram então de me chamar Severino de Maria / como há muitos Severinos/com mães chamadas Maria, / fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias”.


Mas nem só no Nordeste e na imortal obra de João Cabral, existem Severinos. Conheço um aqui de Dourados, meu amigo há mais de trinta anos cujo pai é paraguaio e mãe gaúcha, morando atualmente na Reserva Indígena devido ao seu segundo casamento. Conhecemo-nos na militância política e a nossa amizade consolidou-se graças a convergência de nossas ideias em torno de uma sociedade mais justa e mais igualitária.


Devido ao seu desejo de transformar o Mundo Severino candidatou quatro vezes, na tentativa de eleger-se vereador ou deputado, mas desistiu, pois ele mesmo afirmou que “nunca teve sorte na política”
No livro de Nicanor Coelho, “Heróis Dourados” Severino mereceu um artigo com direito a foto ao lado de seu velho e surrado Corcel amarelo, ano 1973. No artigo “Severino, o ‘inelegível’, e o seu intrépido amigo ‘amarelo’”, é contada a história de luta desse homem que aos 14 anos fez a sua mala e partiu de Amambai, onde morava com o avô, para Dourados, tentar fazer a sua vida. Começou fabricando tijolos em uma olaria, depois tornou-se pedreiro. Casou-se cedo com uma bela negra (Valdenice) da família Guilherme, com quem vive até hoje e com a qual teve um filho. Ela, salgadeira de primeira classe, ele, agora, depois de muito esforço e vários cursos, tornou-se mestre de obras.


Por conhecer bem Severino, quando minha filha e o noivo resolveram construir uma casa, eu o chamei, apresentei-o, e eles firmaram verbalmente o contrato para a construção.


Todas as vezes em que visito a obra, hoje já respalda, impressiona-me não somente a técnica esmerada da construção em si, mas a limpeza que mantém na obra e o cuidado em não produzir muito entulho. Dá gosto de ver, parece até mesmo que ele andou fazendo algum curso sobre cidades educadoras, onde as boas práticas são elogiadas.


Sempre prestativo, calmo, sorriso largo, Severino e sua esposa são vencedores. Lutaram, mas venceram. Não que tenham se tornado ricos, precisam continuar trabalhando, no entanto são felizes. O velho corcel amarelo ficou apenas na lembrança, hoje ele possui um belo Uno no qual engata uma carreta, quando se faz necessário levar algum material para as suas obras.


Dias atrás, me contou ele, foi ao aeroporto de Campo Grande esperar a esposa que tinha ido a Manaus visitar uma irmã.


Confesso minha perplexidade. Já li e ouvi falar que os pobres que ascenderam à classe média, estavam frequentando aeroportos, mas agora estava ali, frente a frente com um deles. Então não resisti, perguntei-lhe como poupara para tão longa viagem e se Valdenice, sendo negra não sofrera nenhum tipo de racismo.
Que nada, disse-me Severino com o seu sorriso largo, depois que o Lula entrou, não me faltou serviço, a mão de obra do pedreiro foi valorizada e, mesmo agora, com Dilma, fala-se muito em crise, mas não me falta trabalho.


Felicito meu amigo e fico pensando com os meus botões que a Lava a Jato, mais conhecida como vaza a jato, está muito demorada e prejudicando o combate à crise. Penso que estão pendentes muitas apurações e não somente as que tentam derrubar Dilma, prender Lula e esmagar o PT. Existem outros escândalos, que precisam ser apurados, inclusive o recente provocado por Fernando Henrique, não no que toca à sua vida privada, mas no que concerne aos compromissos que fez com a Globo, BNDES e a Brasif, para esconder a amante na Europa.


Torna-se extremamente necessário que o Ministro da Justiça estabeleça novas equipes para dar agilidade às investigações, punir quem mereça e inocentar os que nada devem. Assim o país poderá retomar o seu crescimento, com muitos Severinos, não mais “os de Maria e do finado Zacarias”, mas que hoje tem nome próprio como Severino Cavanha de Ávila, o personagem dessa crônica.


Membro da Academia Douradense de Letras; e-mail: [email protected]

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