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A polêmica do herói que morreu por nós

05 Dez 2015 - 07h00
Eron Brum


O tenente Antônio João Ribeiro foi meu primeiro herói. Pela primeira vez, ouvi seu nome cantado em prosa e verso pela professora Tia Tonica, que ensinava o BÊ A BÁ – para os mais jovens, ler e escrever - na escola primária de Dourados. Depois de alfabetizado fui transferido para o Grupo Escolar e lá encontrei mais uma querida professorinha, a Dona Pompéia, outra que exaltava o nosso herói. Nosso, porque a turma toda já fazia coro aos elogios do bravo tenente que morreu por nós ao enfrentar, acompanhado de apenas 15 companheiros de farda, o poderoso exército paraguaio comandado pelo temível Francisco Solano Lopez.


Mal informados – não por culpa das professoras, por nossa mesmo, inflados de ufanismo – chegávamos a jurar que o tenente Antônio João e seus valentes comandados tombaram no local onde hoje é a Praça Antônio João, a principal de Dourados. E não adiantava um ou outro professor garantir que a batalha acontecera, sim, mas bem longe da nossa Dourados. Terminado o primário, agora ginasianos, não dávamos ouvido às explicações dos professores do Ginásio Osvaldo Cruz tentando nos convencer de que a história era um pouco diferente daquela que povoava nossas mentes e corações.


Pois não é que recentemente a alma de Antônio João voltou a rondar minha cabeça? Foi só abrir o livro 9 da coleção Obras Completas de Raul Silveira de Mello, segunda edição, do IHGMS, que lá estava com todas as letras um alerta do prof. Hildebrando Campestrini: “Verdade seja dita que pouca coisa, de exato, se sabia, até hoje, a respeito de Antônio João...e Raul Silveira de Mello se entregou a exaustiva pesquisa para provar que a figura de Antônio João passara à história até sob visão novelesca”.


Visão novelesca? Levei um baita susto, mas, pensando melhor, até que fiquei aliviado. Afinal, aquela criatura – eu, claro - que vivia o alvorecer das primeiras letras do alfabeto tinha lá suas razões para se enganar. Li da primeira à última letra o livro A epopeia de Antônio João (matéria ao lado) e agora, pelo menos, sei que ele não enfrentou os temíveis paraguaios na principal praça de minha cidade natal, mas, bem longe dali, na Colônia Militar dos Dourados, e não de Dourados.


E olha que gente acima de qualquer suspeita entrou nessa polêmica. Raul Silveira de Mello assegura que nenhum cronista, nenhum historiador se deu ao luxo de levantar uma dúvida sobre a veracidade da frase ´´ Sei que morro, mas meu sangue e o de meus companheiros servirão de protesto solene contra a invasão do solo de minha pátria´´. O autor ainda lembra que a frase atribuída a Antônio João apareceu, pela primeira vez, no livro Histórias Brasileiras, editado no Rio de Janeiro, em 1874, de autoria de Sylvio Dinarte, pseudônimo do Visconde de Taunay.


Quase no final de A epopeia de Antônio João fiz às pazes com Raul Silveira de Mello ao encontrar o intertítulo A falta de comprovante não impediu que a frase Sei que morro... se impusesse à aceitação geral. Mesmo destacando que não se conhece comprovante algum da existência ou autenticidade do célebre bilhete a lápis que Antônio João teria escrito momentos antes de ser fuzilado pelos paraguaios, a frase ganhou consistência, notoriedade, aceitação tal que ninguém, entre nós, ontem e hoje, ousaria levantar uma suspeição, uma pontinha de dúvida, contra a sua veracidade.


Bem, se até Raul Silveira de Mello acabou aceitando a frase mesmo sem qualquer prova material, quem sou eu para, algumas décadas depois, procurar outro herói – produto escasso nos dias de hoje - para venerar? Fico com o bravo tenente Antônio João Ribeiro. Realidade ou lenda, seu bilhete a lápis com a célebre frase está gravado no fundo do meu coração. Tia Tonica e Dona Pompeia estavam corretíssimas, nunca mais ousei duvidar das doces palavras de minhas primeiras professoras.

O autor é jornalista e associado titular da cadeira n°24 do IHGMS.

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