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Davi Roballo

O apanhador de latas

06 Jul 2016 - 06h00
O velho Juvêncio era tido como louco por todos que passavam por aquela esquina e o viam sair de um velho ônibus e estender as mãos aos céus a dizer: obrigado estrela de fogo que iluminas meu dia, minha alma e minha vida, obrigado por ainda não ter se cansado dos homens. Obrigado, mãe Terra, pelo alimento que comi ontem e pelo que comerei hoje. Obrigado universo sem tamanho por toda minha felicidade e por toda minha riqueza.


Juvêncio mesmo com os gracejos dos passantes não deixava de abraçar árvores e chamar cachorros e outros animais de irmãos, enquanto se dirigia para a padaria do Joaquim e mal chegava o português, logo lhe perguntava:


- O que é felicidade para você Juju? E Juvêncio respondia:


- É uma caneca de café com leite acompanhado de um pão com mortadela pela manhã e ler um bom livro durante a noite, enquanto tenho a companhia e o silêncio de meus cachorros.
- E o que meu amigo anda lendo?


- Dom Quixote. Estou na enigmática parte em que o Cavaleiro da Triste Figura enfrenta 40 Moinhos de vento que ele jura serem gigantes, derrota 20, e é derrotado por 20. Genial, genial esse Cervantes, pois essa parte nos mostra o absurdo que cometemos muitas vezes ao enfrentar o que não existe, a sandice em construir uma ficção para nos proteger da realidade. Criar um mundo paralelo por termos medo de explorar nosso mundo interno, um mundo desconhecido e que nos causa pânico só o fato de olharmos fixamente para dentro de nossos olhos quando estamos diante de um espelho.


- Você já pensou em largar essa vida, Juvêncio, pois já nos provou ser uma pessoa inteligente?


Perguntou-lhe um produtor de TV, que há dias tentava convencê-lo a gravar uma série sobre sua vida como apanhador de latas.


- Eu, largar minha vida livre, leve e entrar nessa prisão em que vocês vivem, nunca! Tudo o que possuem eu já possui e quanto mais possuía, mais pobre ficava, já vivi trancafiado em casa como vocês vivem e hoje exposto aos perigos das ruas estou mais seguro que todos...


- Mas é uma oportunidade de mudar para melhor tua vida. Disse o produtor.


- Minha vida eu mudei para melhor desde que decidi viver como vivo.


- Juntando latas! - reagiu o produtor.


- Não. Recolhendo o lixo que as pessoas que se julgam felizes por terem um carro, um apartamento e um bom emprego jogam por onde andam, pois perderam a sensatez ao tratarem as ruas como tratam o ambiente interno de si mesmas.


- Você não entendeu. Estou te falando da oportunidade de sucesso e de levar uma vida tranquila. - enfatiza o produtor.


- Isso é tudo o que minha vaidade quer. Se eu der isso a ela, tudo que há de harmonia em mim evapora. Passarei a ser alguém agitado e insaciável, pois uma vez acordada, a vaidade se torna cada vez mais voraz a ponto de consumir quem a alimenta.


- Não seja intransigente, - insiste o produtor - quero te oportunizar uma vida digna a um homem de tua sabedoria.


- Não, meu caro, talvez não saibas, mas queres mesmo é se aproveitar das bobagens que digo para ganhar dinheiro e posteriormente comprar, comprar e comprar futilidades na esperança de preencher teu vazio existencial. Hoje, pode discordar deste velho, mas chegará o dia em que vai perceber teus cabelos brancos e o rastro do tempo em teu rosto, então lembrará e dará razão a este amigo que todos percebem como um louco, um Diógenes contemporâneo, que vive, não em um barril, mas dentro de uma sucata de ônibus...


Juvêncio ainda anda pelas ruas e pelas estradas apanhando latas agasalhado em sua roupa surrada, ciente de que o agasalho da felicidade é o coração leve e a alegria de viver...


Jornalista, especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: [email protected]

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