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Editorial

Protestos Democráticos

12 Mar 2016 - 06h00
Em meio ao agravamento das crises política, econômica e moral que assolam o país, organismos de combate à corrupção se mobilizam amanhã, em todo o Brasil, em defesa do impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ainda que setores do próprio governo e, sobretudo, do Partido dos Trabalhadores (PT), estejam céticos em relação à adesão da sociedade ao movimento de 13 de março, a Arko Advice, consultoria especializada em mapear protestos políticos, acaba de concluir estudo apontando que a expectativa para os protestos de amanhã é que haja um número igual ou superior ao de 15 de março do ano passado, quando a mobilização pró-impeachment levou mais de 3 milhões de pessoas às ruas em todo o país em atos coordenados pelos grupos Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados Online. A diferença entre o protesto do ano passado e o que será realizado amanhã é que a oposição decidiu, enfim, engrossar os atos pelo impeachment da presidente Dilma, tanto que deputados federais e senadores do PPS, DEM e do PSDB prometem liberar os protestos nos seus respectivos Estados.


Às vésperas do protesto, é oportuno lembrar que em 1968, mesmo ano em que o governo militar editou o Ato Institucional Nº 5, o paraibano Geraldo Pedroso de Araújo Dias, o Geraldo Vandré, deu voz ao povo por meio da música ‘Pra não Dizer que não Falei das Flores’, destaque no III Festival Internacional da Canção e que marcou toda uma geração. A letra de Geraldo Vandré soava como um convite para que a sociedade oprimida pelo governo militar saísse pelas ruas caminhando e cantando, e seguindo a canção; somos todos iguais, braços dados ou não; nas escolas, nas ruas, campos, construções; caminhando e cantando e seguindo a canção. Agora, 46 anos depois, talvez oprimida por aqueles que ainda não aprenderam o verdadeiro sentido da democracia, a sociedade brasileira parece recorrer à inspiração de Joaquim Osório Duque Estrada para, tal qual um trecho do Hino Nacional, sair às ruas e gritar que se ergues da justiça a clava forte; verás que um filho teu não foge à luta, nem teme, quem te adora, a própria morte.


Para muitos cientistas políticos e sociólogos, uma gigantesca massa que permaneceu inerte por décadas parece estar despertando para a necessidade de defender os direitos inerentes do cidadão e, mais importante, a sociedade começa a descobrir que o poder emana do povo e em seu nome deve ser exercido. Mais uma vez, fica a lição de Duque Estrada, na letra do Hino Nacional Brasileiro: se o país é gigante pela própria natureza, se és belo, és forte, impávido colosso, e se o teu futuro espelha essa grandeza, então que o povo comece a ser ouvido e respeitado. As vozes revoltadas com tanta corrupção prometem tomar as ruas amanhã em metrópoles como São Paulo, Rio, Brasília, Maceió, Porto Alegre, Fortaleza, Salvador, Vitória, Curitiba, Belém, Campo Grande, Belo Horizonte e tantas outras, não apenas em defesa do impeachment da presidente da República, mas, sobretudo, pelo fim da roubalheira na coisa pública em todos as esferas do poder. Ademais, as instituições públicas, que parecem maduras, não podem fazer ouvidos moucos para o clamor popular, pelo contrário, devem rever seus conceitos no trato com o cidadão, principalmente no que se refere à contrapartida estatal pela pesada carga tributária que o brasileiro carrega nas costas.


Talvez por isso, o Movimento Vem Pra Rua, Movimento Brasil Livre e Revoltados Online estejam dispostos a levar mais de três milhões aos protestos amanhã, repetindo o sucesso da mobilização que se estendeu por mais de 400 cidades de todo o Brasil no ano passado, reunindo cidadãos das mais variadas etnias, orientações e idades, de forma cívica, pacífica e organizada. Que o objetivo pacífico dos protestos de amanhã não sejam maculados pelo confronto entre opositores e apoiadores do governo federal, mesmo porque os militantes estão sendo convocados a também sair às ruas. O ponto positivo é que o cidadão parece ter despertado para a necessidade de defender não apenas os seus direitos, mas, também, os direitos que as futuras gerações têm de viver num país melhor, mais justo e livre da corrupção. Geraldo Vandré compôs ‘Pra não Dizer que não Falei das Flores’, em 1968, mas a impressão é que somente agora o povo começa a perceber a força do refrão que diz ‘vem, vamos embora, que esperar não é saber; quem sabe faz a hora, não espera acontecer’ precisa ganhar vida e fazer a hora.

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