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Editorial

Duas Rodas

29 Jan 2016 - 09h56
Houve um tempo em que as bicicletas foram sendo deixadas de lado pela grande maioria da população como meio de transporte, principalmente nas ultimas décadas onde a compra de veiculo automotor foi sendo cada vez mais possível aos brasileiros com a facilidade dos financiamentos e a partir da estabilidade econômica do plano real implantado com sucesso pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. O tempo foi mostrando que os carros e as motos são úteis e ágeis no dia a dia das pessoas porem, por outro lado são prejudiciais.


Foi aparecendo o lado sedentário que aliado ao estresse do dia a dia tem acometido a grande maioria das pessoas que viram dependentes de seus carros e nunca abrem mão deles. Na realidade aos poucos a população foi redescobrindo a bicicleta, reavaliando este veículo de duas rodas ecologicamente correto, sem despesas de combustíveis e com inúmeros benefícios a saúde. As bicicletas foram ressurgindo com o aumento da procura por todos os modelos, porém, surgiu um outro grande problema: não existe espaço para que os ciclistas circulem com segurança entre os inúmeros carros e motos.


Sem ciclovia nas cidades e sem acostamento nas rodovias fica impossível andar de bicicleta. Mesmo assim algumas pessoas insistentes estão utilizando a bicicleta no seu dia a dia, usando os equipamentos de segurança disponíveis no mercado. Mas até que ponto eles são realmente seguros? As chances de evitar acidentes está mais nas mãos do condutor do veículo de quatro rodas do que no de duas rodas. O veículo maior se sobrepõe ao menor e portanto qualquer colisão pode ser fatal.


Na última segunda-feira dia 25, por exemplo, até mesmo um campeão de ciclismo de longa distância morreu atropelado, durante um treinamento com outros atletas. Claudio Clarindo de Oliveira, tinha 38 anos. Quase todos os dias, ele treinava na estrada que liga Guarujá a São Sebastião, no litoral norte.


Um grupo de cinco ciclistas seguia pelo acostamento da estrada, quando um carro que vinha no sentido contrário invadiu a pista e atingiu Clarindo e outro ciclista, Jacob Amorim, de 32 anos.


O motorista do carro prestou socorro às vítimas e em seguida foi levado a uma delegacia, em Santos. O teste do bafômetro deu negativo, mas ele confessou aos policiais que dormiu ao volante. Clarindo foi socorrido ainda com vida, mas morreu a caminho do hospital.


Cláudio Clarindo de Oliveira era um especialista em provas de longa distância e considerado um dos dez melhores do mundo na sua modalidade.


Cláudio Clarindo tinha sido selecionado para participar do revezamento da tocha olímpica durante a passagem por Santos. O motorista que atropelou os ciclistas vai ser processado por homicídio culposo, quando não se tem a intenção de matar.


Percebemos neste acidente que nem mesmo aquelas pessoas treinadas, que se protegem e ainda incentivam todos os ciclistas a se protegerem estão livres dos acidentes nas estradas brasileiras, onde nem sempre quem faz tudo certo está a salvo porque em questão de segundos uma pessoa dirigindo sonolenta pela contra mão pode acabar com a vida de alguém que pensa estar protegido, mas por causa da fragilidade das bicicletas perante os veículos as tragédias vão sempre acontecer.


Em todo o Brasil a luta por ciclovia vem se tornando projeto de futuro e para atender uma demanda crescente, porém distante de sair do papel. Enquanto isso, milhares de ciclistas se arriscam nas cidades e nas rodovias todos os dias, desafiando congestionamentos e buscando alternativas para usufruir dos benefícios que o ciclismo proporciona a saúde, o bem estar e a própria competitividade saudável que o ciclismo como esporte tem trazido tanto para o jovens como para os adultos.


A frota de automóveis nas grandes cidades do país, só aumenta e as bicicletas tentam conquistar seu espaço e os números demonstram que essa luta deve continuar e tende a continuar. Levantamento do G1 junto às prefeituras das 26 capitais do Brasil mostra que, juntas, elas possuem apenas 1.118 km de ciclovias – o que representa apenas 1% do total da malha viária das cidades (97.979 km de ruas).


O Brasil tem hoje cerca de 70 milhões de bicicletas, mas quase não há lugares exclusivos e seguros para se trafegar, especialmente nas metrópoles. Em meio à crescente frota de automóveis nas grandes cidades do país, as bicicletas embora “magrelas” tentam conquistar seu espaço. Cabe ao poder público mudar essa realidade.

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