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Entrevista

“Conflitos indígenas migrarão para a cidade”, alerta Aguilera

23 Jun 2016 - 06h00
Entrevista com Aguilera de Souza da tribo guarani, é o primeiro vereador indígena de Dourados. - Crédito: Foto: Hedio FazanEntrevista com Aguilera de Souza da tribo guarani, é o primeiro vereador indígena de Dourados. - Crédito: Foto: Hedio Fazan
O vereador indígena Aguilera de Souza (PMDB), da tribo guarani, morador na Aldeia Jaguapiru e professor universitário, ocupou a tribuna da Câmara, na sessão da última segunda-feira, para chamar a atenção quanto à gravidade dos conflitos por terra entre índios e não índios no Brasil. Segundo ele, a própria CF é conflituosa porque garante demarcação de terras aos indígenas e ao mesmo tempo o direito de propriedade aos produtores rurais. E caso não haja providências por parte da União os conflitos migrarão do campo para a cidade. "Isso pode realmente se tornar uma guerra tribal, uma guerra civil entre as nações, os brasileiros, brigando contra os próprios brasileiros nativos". Leia a entrevista:

Como o vereador indígena vem encarando o conflito por terra?


"A Constituição de 88 no artigo 231 amarra juridicamente o direito dos indígenas a demarcação das áreas indígenas por parte da União e até mesmo deram um prazo na época e hoje já se passaram muito tempo, o prazo era de cinco anos para regularizar todas as terras indígenas do Brasil. Mas sabemos que hoje a maior causadora dos conflitos é a União porque hoje nós temos o direito constitucional dos povos indígenas com relação a terra e o direito de propriedade dos pequenos ou grande produtores. Eu vejo assim um triângulo jurídico que envolve todos esses conflitos. Então nós temos visto, acompanhado, não só aqui em nível de Mato Grosso do Sul, mas em nível de País, essa situação que vem se agravando e eu sempre levanto essa tese de que o governo brasileiro precisa buscar uma alternativa para tentar solucionar tanto o direito dos índios como dos não índios. Eu vejo que o conflito, as mortes que vem acontecendo, quem leva mais prejuízo é a comunidade indígena e a gente tem visto que isso se generaliza, até mesmo um preconceito muito grande nas mídias sociais dizendo que índio é assassino, indígena invasores, mas por outro lado nós vemos também produtores assassinos e analisando, voltando para a nossa Constituição Federal percebemos que a própria Constituição Federal é a consequência de tudo isso que está aí se agravando, tanto que hoje muitas das vezes o indígena pede a demarcação, muitas das vezes perdemos lideranças, crianças nas rodovias, os anciãos sendo massacrados, sendo mortos pelos acidentes e muitas das vezes nós pensamos assim, mas será que a terra realmente vai ser nossa? Se a terra desde 1.500 para cá, de 88 pra cá pertence ao governo federal, à União".

Como as aldeias vêm preservando a cultura?


"Até 1499 a única sobrevivência em busca do espírito, da própria natureza, que envolve as questões indígenas foram muito fortes, porque era uma bússola que direcionava a harmonia cultural, religiosa entre os povos indígenas. Mas a partir de 1500 isso mudou. A cultura, a religião, a língua, isso mudou porque a cultura para alguns é como se fosse uma fortaleza, mas a cultura é uma encruzilhada, são encontros de várias culturas, até hoje muitas das vezes até o governo federal tem colocado tudo isso em pauta, de que nada se pode fazer dentro de um habitat indígena dentro da questão cultural, mas isso o governo federal precisa fazer uma reflexão, para saber até aonde isso vem atrapalhando os projetos estruturantes dentro de nossa comunidade porque eu vejo cultura como desenvolvimento, cultura, por mais que seja sagrada, cultura é educação, é viver bem, e hoje os povos indígenas do País, como estão vivendo? Principalmente aqui no Mato Grosso do Sul. Nós estamos vendo o desenvolvimento em todos os municípios onde também a lei fala que tanto o município, estado ou governo federal tem responsabilidade para poder para fortalecer a cultura dentro de uma comunidade, e isso não está acontecendo. Onde tem as mãos do município, do estado ou do governo federal o desenvolvimento tem acontecido em vários lugares da cidade, mas e a aldeia como fica?. Hoje o município, o estado e o governo federal não sabem, quem vai tomar conta das questões indígenas.

Os conflitos tendem a aumentar?


"Chegou a tal ponto que eu como professor enxergo que se a União não tomar uma atitude séria, se não houver interesse político os conflitos vão passar do campo para a cidade. Pode até vir para um bairro ou até mesmo para o centro da cidade. Isso é um alerta. Eu sempre falo para as lideranças em qualquer situação eu sempre estou falando, pensando como índio, eu não estou falando como indigenista, mas como índio, não estou pensando como representante de entidade, como Funai e Cimi, eu estou pesando e falando como indígena, o que eu sinto na pele é que se o governo não tomar uma atitude de vincular ou se aproximar, o estado brasileiro se aproximar dos povos indígenas, isso pode realmente se tornar uma guerra tribal, uma guerra civil entre as nações, os brasileiros, brigando contra os próprios brasileiros nativos".

Por que ainda há tantas reclamações de preconceitos contra indígenas?


"Eu sempre costumo dizer que a própria educação do nosso Brasil vem contribuindo para isso, de que forma? Em livros didáticos, o governo federal encaminha para várias escolas do nosso Brasil, nós vimos índios muitas das vezes fora da sua realidade, caçando, pescando, dando uma visão de índio congelado, aquela que parou no tempo, o que não evolui, muitas das vezes nós vimos aí indios sem história, a sociedade precisa conhecer a realidade dos índios antes de falar sobre o índio. Hoje a população brasileira é composta por três povos, três raças humanas, indígenas, negros, uma história que não está estampada em livro didático, isso vai se reproduzindo e hoje a gente tenta levantar essa bandeira de pressionar o governo federal porque claro que cada indígena tem sua cultura, tem sua forma de se organizar, tem sua religião, então, eu vejo que a discriminação acontece por meio destas situações, destas consequências que hoje nos afetam, porque muitas das vezes a gente tem sofrido sim, sofrido discriminação até mesmo dentro da universidade, nas ruas, em lojas e supermercados, não foi diferente também o que aconteceu comigo recentemente na Câmara, dentro da Casa de Leis, então olha a situação que o índio enfrenta. A discriminação só vai diminuir se reeducar novamente o Brasil e hoje, como professor, vejo que a educação intercultural poderá melhorar isso.

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