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Especialistas divergem sobre maior tragédia climática da história do país

17 Jan 2011 - 17h35
Tragédia na região serrana do Rio de Janeiro já
deixa mais de 600 mortos - Crédito: Foto: Celso Pupo/G1Tragédia na região serrana do Rio de Janeiro já deixa mais de 600 mortos - Crédito: Foto: Celso Pupo/G1
Pesquisadores e geólogos divergem sobre o evento considerado a maior tragédia climática da história do país. As diferentes opiniões levam em conta o período de medição das chuvas e a contagem das vítimas, já que o Brasil não possui um banco de dados oficial sobre os prejuízos causados por tragédias climáticas.

Para o geólogo Agostinho Ogura, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), os escorregamentos de terra que ocorreram entre 1966 e 1967, na Serra das Araras, no Rio de Janeiro, caracterizam a pior tragédia da história até o momento. “Os registros que nós temos indicam algo em torno de 2 mil mortos, em 1967, na região da Serra da Araras. Considerando o número de vítimas, essa foi a maior tragédia da história do país”, afirma.

A climatologista Lucí Hidalgo Nunes, no entanto, considera que os deslizamentos registrados neste início de ano na Região Serrana do Rio de Janeiro são os piores já acompanhados pelos brasileiros. “A contagem das vítimas na Serra das Araras leva em consideração as mortes causadas por diferentes eventos, em áreas próximas. É um somatório, por isso, no meu entender, a tragédia que está ocorrendo na Região Serrana do Rio é a maior”, diz a geógrafa da Universidade de Campinas (Unicamp).

Além da chuva na Serra das Araras, os anos de 66 e 67 foram marcados por inúmeros deslizamentos na Região Sudeste, segundo os especialistas, incluindo ocorrências em Caraguatatuba (SP). “Em Caraguatatuba morreram cerca de 1 mil pessoas, e mais de 400 na Serra das Araras, mas tenho a impressão de que essa [na região serrana do Rio] é a tragédia mais significativa, porque atingiu três grandes cidades, conhecidas no cenário nacional e mundial. Se essa não é a pior tragédia, é certamente uma das maiores, principalmente porque a contagem de vítimas ainda está em andamento”, afirma o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos.

Antônio Mattos, historiador e subtenente do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, atuou nas enchentes de 1966 e 1967 no estado. \"As enchentes de 1966 deixaram cerca de 200 mortos, e atingiram praticamente todo o estado. Em 1967, a precipitação que ocorreu na comunidade no alto da Serra das Araras, com o rompimento de barragens, causou prejuízos porque o solo estava encharcado, mas o número de mortos certamente não chegou a mil, foi muito menor, provavelmente inferior ao número de mortos na região serrana do Rio, neste mês\", diz.

Para o geógrafo Lucivânio Jatobá, professor de ciências ambientais da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a maior tragédia climática da história brasileira é mesmo a registrada neste ano. “Acredito que a maior catástrofe em termos quantitativos seja essa que estamos vivendo na Região Serrana do Rio, mas esse não é um fenômeno único e não será o último. Trata-se da associação de precipitações abundantes, em um curto período de tempo, em áreas de destruição da cobertura vegetal. Fora isso, há o fator da geologia em si. O movimento de massa ocorreria nessas áreas mesmo sem a ocupação humana”, afirma o geógrafo

A Defesa Civil Nacional afirma que não há registros oficiais sobre o número de mortos em 1966 e 1967. O órgão também afirma que não possui nenhum levantamento sobre as maiores tragédias climáticas da história do país.

Tragédia anunciada
Mesmo sem registros oficiais de dados sobre os prejuízos causados por escorregamentos de encostas, o que ambos pesquisadores concordam é que é necessário um levantamento único de informações para auxiliar na prevenção de tragédias anunciadas como a que já matou mais de 600 pessoas no Rio de Janeiro.

“As chuvas de 1967 e de agora são semelhantes. Foram muito intensas, com registros de chuva anterior, e concentradas em um espaço relativamente curto de tempo. Os escorregamentos generalizados das encostas apresentaram uma dinâmica muito destrutiva, mobilizando solo, rochas e árvores, com alto potencial destrutivo e baixo potencial de tempo de resposta adequado\", diz o geólogo Ogura.

“O grande problema é que o país está sendo pego sempre de calças curtas. Não há um plano de ação organizado e também não há informações, um estudo nacional para entender o meio e assim prevenir ocorrências como essa”, diz Lucí.

(G1.com)

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