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Anarandá: a voz da aldeia em defesa das mulheres

Rapper, professora de guarani, digital influencer e palestrante, indígena tem a preservação da cultura como inspiração

21 Mai 2022 - 07h00Por Rozembergue Marques, especial para O PROGRESSO
A Rapper Anarandá: conscientização através da arte e do ensino das tradições - Crédito: DivulgaçãoA Rapper Anarandá: conscientização através da arte e do ensino das tradições - Crédito: Divulgação

Além do grupo Brô MC’s, que gravou com o DJ Alok “Jarahá” e teve a música incluída na trilha sonora no remake da novela Pantanal, outra voz da aldeia tem se levantado em defesa dos guaranis, terenas e caiuás que moram na Reserva Indígena de Dourados, a maior do país em densidade populacional.

A jovem guarani-kaiowá Analucia, que adotou o nome artístico “Anarandá”, usa todas as formas de linguagem para manter viva a cultura e as tradições da sua gente. Acadêmica do curso de gestão ambiental na Universidade Federal da Grande Dourados, Anarandá é professora de diversidade cultural e língua materna, digital influencer, divulgadora da cultura guarani kaiowá em redes sociais como YouTube, Kwai ,Tik Tok, whatsapp e Instagram. A jovem é uma das poucas rappers indígenas do estado e faz da música um meio de conscientização tanto das suas “patrícias” indígenas como da sociedade em geral sobre a realidade vivida pelos indígenas não só daqui como das outras aldeias do país. 

“Considero a música um meio de se chegar sobretudo às mulheres indígenas, de mostrar a elas que somos capazes. Por mais  que estejam lá no fundo da aldeia, isoladas, elas não estão sozinhas. Através da música, da rima, eu relato a realidade do que se passa na aldeia”, disse a rapper. “Falo de amor, ódio, ilusão, feminicídio, homicídio, tudo que está no nosso dia a dia. Muitas mulheres inclusive passaram a denunciar os casos de violência após as palestras e da música que eu faço, como uma chamada “feminicídio” e de outras que abordam esses assuntos, que precisam ser falados, mostrados”, enfatizou.

A música e as aulas de guarani (a chamada (língua materna) e de diversidade, segundo Anarandá, tem como principal objetivo manter a tradição oral e as tradições ancestrais indígenas. “Sem perceber estamos perdendo a língua materna. O mundo é muito bruto com os indígenas. Somos muitas vezes obrigados a aprender o português e por isso faço questão de dar aulas de guarani, sobretudo para as crianças. De forma que nossa cultura oral não se perca”, pondera Anarandá.

Indagada se a diversidade não pode causar um efeito reverso que é a perda da identidade, Anarandá concorda, mas faz uma observação muito pertinente. “É muito importante ter a diversidade, mas claro que é fundamental manter a identidade. Não é porque uso celular, por exemplo, que deixo de ser indígena. A minha ancestralidade está dentro de mim, onde e como quer que eu esteja:  na univesidade, no mundo das artes, nas palestras. Temos nossas crenças e lutas e levar a todos os lugares essas tradições”, acredita a jovem cantora, que antes da pandemia já se apesentou em outros estados e, com a pandemia, ganhou visibilidade através de lives realizadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Ceará. 

Sempre convidada para se apesentar em eventos relacionados a lutas sociais, principalmente os promovidos por movimentos de mulheres e movimentos indígenas, Anarandá é a voz das mulheres indígenas nos palcos, na sala de aula e nesses eventos. Aqui, uma curiosidade: essa vocação foi descoberta ainda criança, sentindo na pele as conhecidas dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas. “Desde criança quis ser comunicadora e encontrei na música uma forma de dar voz ao meu povo. Me sinto útil e feliz em levar ao meu povo, através da arte,  a consciência  de que somos todos iguais e que temos direito a uma vida digna, assim como todas as pessoas do mundo”, finalizou a rapper.

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