Dourados – MS quarta, 08 de julho de 2020
Dourados
19º max
10º min
Opinião

Profissão: Ladrão

02 Fev 2016 - 10h24
Davi Roballo

Nas ruas havia já a solidão típica das madrugadas interioranas em que minutos distante de minutos se percebe um bêbado, um carro que corta as ruas e calçadas, e ouve-se de vez em quando, ao longe, um latido de um cão, impedindo que qualquer criatura invada seu território, geralmente violado por gatos. Na sala do distrito policial, o delegado, um homem maduro, tragava a fumaça de um cigarro o qual havia acendido na bituca de outro, tamanho o seu desconcerto diante dos argumentos apresentados por um meliante pego no ato de furto, horas antes.


Tucha, um homem na faixa dos 30 anos, recusava-se a ser tratado como meliante, vagabundo etc. Numa postura firme, eloquente e altiva, exigia do delegado respeito:


Delegado ─ Um sujeito que é pego às 2 horas da manhã furtando um carro em uma residência então não é vagabundo?


Tucha ─ Não, senhor, é um ladrão.


Delegado ─ Ladrão e vagabundo é tudo a mesma coisa.


Tucha ─ Não, senhor. Vagabundo é vagabundo, não gosta de trabalhar, vive dependendo dos outros, já ladrão é uma profissão digna.


Delegado ─ Profissão digna! Você deve estar de sacanagem.


Tucha ─ Não, senhor. Repito, minha profissão é ladrão, uma profissão digna que gera emprego e renda.
Delegado ─ Era só o que faltava, além de não aceitar ser encarado como um gabiru, um vagabundo, ainda diz ser digno e gerador de emprego e renda.


Tucha ─ Sim, senhor! Se não fosse por pessoas como eu, o senhor não estaria atrás dessa mesa. Esse repórter que me olha com superioridade e desprezo não estaria aqui e ao meio-dia não teria o que alardear pelas ondas de sua emissora. O policial militar, o policial civil, os vigias, guardas e outros da área de segurança, não fosse pelos ladrões, suas funções não existiriam.


Delegado ─ Não bastasse dizer que é digno, agora quer se comparar a pessoas normais, profissionais que cumprem sua responsabilidade social.


Tucha ─ Mas... eu cumpro minha obrigação social. Sou parte de uma demanda de controle.


Delegado ─ Agora além de ladrão também é sociólogo. Nossa conversa está ficando interessante...


Tucha ─ Governo que se preze nunca vai acabar com gente como eu. Todo Estado tem condições de acabar com o roubo e com os ladrões. Não acaba porque o ladrão movimenta a economia e também mantém as pessoas ocupadas com as questões de segurança, para que não sobre tempo para preocupações mais sérias. A sociedade sem ladrões seria o caos para quem detém o poder.


Delegado ─ É... No entanto, como você foi pego em flagrante, vai preso, e sua família vai levar a pior. Se você fosse tão digno como diz, pensaria em tua esposa e teus filhos primeiro.


Tucha ─ Como qualquer bom profissional, penso neles. Sempre soube dos riscos de minha profissão, como não poder voltar para casa. Quanto a dificuldades, como vou passar a ser um tipo de funcionário público não declarado, pois é isso que o preso é, minha esposa vai receber o auxilio reclusão e mais benefícios dos governos Federal e Estadual. Isso prova que minha profissão é digna. Pois, se não fosse, os governos não me valorizariam como me valorizam.


Delegado ─ Pode estar até mesmo com razão, mas que você vai perder muito sendo preso, isso vai, principalmente a liberdade.


Tucha ─ Não creio nisso. Pois lá estarei mais seguro que aqui fora. Terei direito a um advogado, a visita íntima, comida balanceada todo dia e minha família estará assistida. Isso é bem melhor que a incerteza em que vivo aqui fora, isto é, dia sim, dia não, consigo executar perfeitamente um roubo. Além do mais, estando preso tenho ainda a oportunidade de me reciclar, de me especializar, trocar experiências sobre novos métodos, novas técnicas e tendências de roubo...


Naquela altura, o delegado sentiu-se impotente diante do ladrão. No entanto, consciente da importância de seu trabalho como homem da lei, ordenou que recolhessem o meliante para a prisão sabendo que em pouco tempo estaria novamente nas ruas e tudo se repetiria. Pois desde que o mundo é mundo, ladrão é sempre ladrão e tem uma razão para sua existência...


Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: [email protected]

Deixe seu Comentário