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Editorial

Indústria de Escândalos

27 Fev 2016 - 06h00
O governo da presidente Dilma Rousseff está se especializando em produzir escândalos, seguindo a cartilha que começou a ser escrita ainda na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva quanto o dinheiro público foi usado para comprar apoio político no Congresso Nacional por meio de pagamento de mensalão aos deputados e senadores de partidos aliados. Se os escândalos no governo Lula não tiveram força para atingir o chefe do Palácio do Planalto, na gestão Dilma Rousseff dificilmente eles deixarão de contaminar a mandatária maior do Brasil, mesmo porque todo dia surge um novo episódio de corrupção. Ontem, por exemplo, A Polícia Federal (PF) cumpriu mandados judiciais em seis Estados e no Distrito Federal dentro da Operação Recebedor, que investiga desdobramentos de fatos apurados na Operação Lava Jato, com base em informações colhidas em acordo de leniência e delação premiada de um dos investigados. Para os adeptos da política do quanto pior melhor, o escândalo de ontem agrava ainda mais a situação do governo federal, mas para o conjunto da sociedade esse episódio prejudicará muito mais o país.


A Polícia Federal cumpriu sete mandados de condução coercitiva e 44 mandados de busca nos Estados do Paraná, Maranhão, Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Goiás e no Distrito Federal, onde integrantes do Ministério Público Federal colheram provas do pagamento de propina para a construção das ferrovias Norte-Sul e Integração Leste-Oeste, bem como da prática de cartel e lavagem de dinheiro ilícito obtido por meio do superfaturamento de obras públicas. A investigação atingiu o núcleo da Valec Engenharia, Construção e Ferrovias, estatal ligada diretamente ao Ministério dos Transportes e que é acusada de ter desviado a bagatela de R$ 630 milhões somente nas obras da Ferrovia Norte-Sul por meio de empreiteiras que faziam pagamentos regulares por meio de contratos simulados a um escritório de advocacia e a mais duas empresas sediadas em Goiás, que eram utilizadas como fachada para maquiar a origem lícita do dinheiro proveniente de fraudes em licitações públicas. Entre os investigados está o ex-presidente da Valec Engenharia, Construção e Ferrovias, José Francisco das Neves, que comandou a estatal entre 2008 e 2011, ou seja, a roubalheira durou quatro anos e deixou um rastro de provas.


O que não falta para alimentar a corrupção na Valec é dinheiro. Ainda que as iniciativas previstas na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2) para ferrovias tenham sido cortadas pela metade, os investimentos passaram de R$ 10 bilhões nos últimos três anos. Mesmo com tanto dinheiro, apenas 34,7% dos projetos foram concluídos no ano passado. No caso das ferrovias, dos 46 empreendimentos previstos, a maioria ainda está em execução ou em obra, enquanto apenas 17 iniciativas foram concluídas até o final do ano passado. Outras seis obras restantes ainda estão nas fases iniciais, mas os problemas mais crônicos estão nos projetos da Extensão Sul da Ferrovia-Norte Sul, de Ouro Verde/GO a Estrela D’Oeste/SP e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, de Ilhéus a Caetité. No ano passado, o governo anunciou pacote de concessões no valor de R$ 198,4 bilhões, sendo R$ 86,4 bilhões apenas em ferrovias, com destaque para os trechos da ferrovia Norte-Sul, entre Palmas (TO) e Anápolis (GO) e entre Barcarena (PA) e Açailândia (MA) e entre Anápolis, Estrela D’Oeste (SP) e Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.


Os escândalos de corrupção deixam claro que o governo federal ignora a importância das ferrovias para desafogar o tráfego nas rodovias interestaduais; para reduzir o custo do transporte coletivo; para facilitar a mobilidade urbana e, sobretudo, para humanizar o transporte interestadual de passageiros. O mais preocupante é que pelo perfil do Programa de Investimentos em Logística: Rodovias e Ferrovias, lançado pela própria presidente Dilma Rousseff ainda no primeiro mandato, o poder público continuaria incentivando apenas o transporte de cargas com investimentos de R$ 133 bilhões exclusivamente para a modernização e ampliação da malha ferroviária e rodoviária brasileiras. Falta sensibilidade para os gestores públicos federais e estaduais na questão do transporte férreo, mesmo porque é cada vez maior o volume de incentivos para a aquisição de veículos automotores e cada vez menor os projetos que beneficiam as ferrovias.

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