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Zelotes, mudando rumos

07 Nov 2015 - 07h00



A Polícia Federal tem imaginação fértil ao criar nomes para as operações que realiza. Tudo começou com Zulmar Pimentel, diretor da PF com dons para marqueteiro. Em 2002, a Operação Arca de Noé foi a primeira operação a ser batizada e continuam até hoje, sendo que, ironicamente, Zulmar foi atingido por uma dessas operações denominada Navalha, que investigou supostos vazamentos de informações sigilosas.
Hoje a operação mais anunciada é a Lava a Jato, que apura irregularidades na Petrobras. Em segundo plano, escondida pela grande mídia, está a operação Zelotes.

Zelotes, o nome dado à operação que apura sonegação de impostos, vem do grego e tem conotação negativa, significa enganador. Parecia evidente: a operação procurava desvelar os responsáveis por desvios em torno de 21 bilhões de reais, sonegados com a conivência de alguns funcionários públicos. Grandes empresas, incluindo-se, dentre elas, bancos e a Globo, deixavam de pagar somas enormes de impostos, eram autuados e recorriam ao CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais). Esses recursos sempre resultavam em perdão ou ensejavam reduções das dívidas, rebaixadas a níveis baixíssimos, em troca de propinas milionárias, mas sempre compensadoras aos sonegadores. Só a RBS, afiliada da Globo, pagou R$ 11,7 milhões para conselheiro do CARF.

Imaginei que essa operação pudesse ser, não um contraponto à Lava a Jato que atinge petistas e aliados, mas a demonstração de que a corrupção no Brasil é uma desgraça que se espalha por todos os setores da sociedade. A condenação dos envolvidos nessas duas operações seria uma espécie de atestado à PF e ao Ministério Público de que não há mais impunidade, doa a quem doer.

Mais uma vez me equivoquei. Primeiro, houve um silêncio sepulcral da grande mídia em torno da Operação Zelotes, depois uma virada no jogo e, ao invés dos grandes sonegadores serem presos e negociarem delações premiadas, como se faz na Lava a Jato, a juíza federal responsável pelos processos da Operação Zelotes em Brasília, Célia Regina Ody Bernardes, solicitou, nesta semana, em caráter urgente à Presidência da República, a quatro ministérios, ao Senado e Câmara dos Deputados, que sejam enviados à Justiça Federal, num prazo máximo de dez dias, todos os documentos, incluindo registro de reuniões, relativos à produção de duas medidas provisórias de 2009 e 2013. São as medidas 471 e 627, ambas transformadas em Leis, sendo a primeira de autoria de Lula e a segunda de Dilma, visando a redução de impostos numa tentativa inédita de sufocar a crise capitalista que se iniciou nos Estados Unidos em 2008, com o estouro da bolha habitacional, e que persiste até hoje no Mundo todo.

Ora, se por um lado, existem provas irrefutáveis de que houve pagamento de propinas por grandes empresários e nenhum foi incomodado, como explicar a averiguação das medidas provisórias pela suspeita de que houve “compra” dessas medidas em benefício da indústria automotiva? E por intermédio de quem? Ora, da família de Lula. Mas uma coisa nada tem a ver com a outra, ou seja, quaisquer suspeitas sobre os filhos ou noras de Lula poderiam ser alvo de outra operação, jamais da Zelotes. Gostaria até de sugerir um nome: “operação abram alas”, por exemplo, seria perfeita para demonstrar que o esforço atual é no sentido de se tomar o poder de um governo eleito democraticamente e voltado para o social, abrindo, assim, a oportunidade dos privatizadores do Brasil, dos entreguistas, dos inconformados, voltarem ao poder.

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS), usando a tribuna da Câmara, na quarta-feira dessa semana, afirmou em relação aos telejornais da Globo, que “estão forçando a barra para dizer que houve pagamento a uma empresa do filho do Lula, mas se esquecem de um detalhe importante: a MP 471 foi editada em 2009, e a empresa do filho do Lula só foi criada em 2011. E não dá para vincular a MP a contrato que só iria ocorrer em 2014 e um pagamento realizado em 2015, seis anos depois. Não faz sentido relacionar o contrato do filho do Lula com a MP”.

Em resumo, toda a corrupção que a direita (inclusive parte da mídia, da PF e do MP) está atribuindo ao governo e a seu partido, não passa de tentativa de golpe contra Dilma e de desconstrução da imagem de Lula, para evitar que concorra em 2018.

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