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Vilarejo que restou após rompimento de barragens lembra cidade fantasma

10 Nov 2015 - 07h00
Em meio ao cenário de muita lama, barro e destruição no distrito de Bento Rodrigues, o que restou lembra uma cidade fantasma. - Crédito: Foto: Antonio Cruz/Agência BrasilEm meio ao cenário de muita lama, barro e destruição no distrito de Bento Rodrigues, o que restou lembra uma cidade fantasma. - Crédito: Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil
Poucas ruas e casas do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana (MG), resistiram ao rompimento de duas barragens da mineradora Samarco na última quinta-feira (5). Em meio ao cenário de muita lama, barro e destruição, o que restou lembra uma cidade fantasma. É possível escutar, em meio à desolação, apenas o canto dos pássaros e o barulho das máquinas que abrem acesso para as equipes de resgate.

Na parte alta da comunidade, uma das poucas casas com movimentação é a de Edirleia Marques, 38 anos, e Marcílio Ferreira, 41 anos. A dona de casa e o operador de máquinas moravam na região com os dois filhos, de 10 e 2 anos, e tem voltado ao local desde sexta-feira (6) para auxiliar bombeiros e homens da Defesa Civil e do Exército nas buscas.

A antiga moradia do casal agora funciona como um ponto de apoio para as equipes que trabalham em Bento Rodrigues. Numa rápida volta pela residência, é possível ver um velotrol e um cavalinho de madeira do filho caçula. Na sala, o sofá e a televisão permanecem no mesmo lugar onde foram deixados, assim como a mesa de seis lugares da família.

Há pelo menos três dias, Edirleia e Marcílio ajudam os homens do resgate a se localizar no que restou da comunidade. Na memória de cada um, permanece fresca a lembrança de onde viviam vizinhos e moradores do distrito que seguem desaparecidos. “É ruim ir embora. A gente quer acreditar que está tudo como antes. Ainda me sinto confortável aqui”, contou Edirleia.

No momento em que a lama atingiu Bento Rodrigues, os filhos do casal estavam em casa. A mãe estava na parte mais baixa da comunidade, devastada pela lama e pelo barro, mas voltou correndo para retirar a família do local. “Meu filho mais novo me pergunta muito sobre a casa. Já o mais velho, que sempre foi calado, não fala muito. Mas ele viu a coisa toda. Viu as casas sumindo, as pessoas correndo”, lembrou a mãe.

Apesar do trauma, marido e mulher garantem que estarão de volta à casa nos próximos dias para auxiliar as equipes de resgate - e também numa tentativa de se apegar ao local onde nasceram, cresceram, se conheceram e começaram uma família. De mãos dadas, eles caminhavam pelas ruas e observavam em silêncio a devastação que tomou conta do local.

“Vamos voltar sempre que possível. Quero estar aqui de novo no dia seguinte. É muito difícil sair de um lugar onde a gente se sentia tão bem”, disse Marcílio, em um dos poucos momentos em que conversou com a equipe de reportagem.

Cães farejadores

Três cães farejadores auxiliam os trabalhos de busca e resgate no distrito de Bento Rodrigues. A informação foi divulgada ontem (9) pelo Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. De acordo com a corporação, os cães receberam treinamento especializado para atender a esse tipo de ocorrência e vão acompanhar os trabalhos dos militares que estão no local desde a última quinta-feira (5).

As ações humanitárias de transporte de alimentos e medicamentos para as comunidades atingidas também serão mantidas pelo Corpo de Bombeiros, bem como o alerta para que a população não se aproxime da chamada zona quente ou área de risco.

“A medida garante a segurança dessas pessoas e evita acidentes como os ocorridos na última quinta-feira, quando duas pessoas tiveram que ser socorridas após tentarem se aproximar dos locais”, informou a corporação.

Pertences

Bíblia, documentos e um travesseiro foi o que a dona de casa Maria Aparecida dos Santos, 57 anos, conseguiu buscar na casa onde morava no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana. A comunidade foi devastada após o rompimento de duas barragens na última quinta-feira (5). A casa de Maria Aparecida não foi atingida pela lama, mas ela só pôde voltar ao local dias depois e apenas para buscar pertences.

“Mudei para cá com 13 anos. Morava aqui com meu marido e cinco filhos”, contou. “Busquei essas coisas, mas deixei para trás minhas galinhas. Coloquei bastante água e comida e volto depois para ver se consigo trazer tudo”, completou.

Dona Maria, como é conhecida, garante que não se preocupa com os móveis e pertences que deixou na casa de Bento Rodrigues. “O que me preocupa é o que vai ser da gente agora”, desabafou. “Se não tivesse morrido ninguém, eu até voltava. Mas tendo morrido gente amiga, conhecida, não dá para voltar mais não. A comunidade acabou”.

O aposentado Gilson Santana Coelho, 42 anos, também tem uma casa que permaneceu de pé após a passagem de todo o barro. Diabético, ele conseguiu voltar ao local para buscar remédios, documentos e algumas peças de roupa. Em razão do risco que continua na região, Gilson e a família foram levados para um hotel em Mariana.

“Somos muitos irmãos. Sempre moramos juntos, uma casa perto da outra. Voltei e busquei o que podia trazer mas mãos e o que cabia no carro da prefeitura” , disse. “Não tem sentido trazer muita coisa porque nem temos onde colocar. Não podemos levar móveis e abarrotar o hotel.”

A irmã de Gilson, Lucimar Úrsula Fernandes, buscou pouca coisa na casa onde morava. Ela voltou ao distrito atrás de informações sobre a sobrinha Emanuely, de 5 anos, que está desaparecida desde o dia da tragédia. “Busquei roupas e mais nada. Sinto um misto de esperança e tristeza que acaba com a gente. Mesmo sendo difícil ver tudo isso, a gente acaba voltando todo o tempo”.

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