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Entrevista

Livro explica sobre os problemas de comportamento e as dificuldades escolares

15 Jun 2016 - 15h32
Médicos Elisabete Castelon Konkiewitz e Miguel Ângelo Boarati, autores do livro. - Crédito: Foto: Divulgação/DZMMédicos Elisabete Castelon Konkiewitz e Miguel Ângelo Boarati, autores do livro. - Crédito: Foto: Divulgação/DZM
Dificuldades e transtornos de aprendizagem apresentados na infância têm sempre forte impacto sobre a vida da criança, de sua família e sobre o seu entorno. Buscar informações com profissionais da educação e da saúde e por meio de pesquisas que esclareçam dúvidas auxilia na compreensão racional do problema para que se possa buscar soluções. Embora a natureza dos problemas seja complexa e envolva diferentes atores, desde a própria criança, a família, o professor, a escola, é possível que o conhecimento aliado a mudanças de atitude se transformem para proporcionar qualidade de vida tanto ao professor como também aos alunos.


O livro "Criança, família e escola: promovendo o desempenho e a saúde emocional do seu filho", lançado em 2015 pela Editora Pulso, aborda toda essa temática envolvendo a família e o ambiente escolar. A obra é uma autoria da médica neurologista e psiquiatra Elisabete Castelon Konkiewitz, professora da Faculdade de Ciências da Saúde da UFGD, com colaboração do Dr Miguel Ângelo Boarati, psiquiatra da USP-São Paulo. Em entrevista, os autores esclarecem mais sobre o assunto.

Os problemas das crianças nas escolas são comuns?


Os transtornos de aprendizado, emocionais e de comportamento na infância são um problema de saúde pública no nosso país. Considerando-se apenas os problemas de saúde mental, ou seja, os diagnósticos psiquiátricos, estima-se que em torno de 20% das crianças apresentem algum grau de comprometimento (OMS, 2001). Na realidade, trata-se de um grupo muito amplo, incluindo situações muito diferentes. O que todos eles, porém, têm em comum são as dificuldades de adaptação social, o sofrimento e/ou o baixo desempenho escolar.


A escolarização é a tarefa de vida mais importante para a criança na meninice. Conseguir ficar em um novo ambiente, separar-se por um período dos pais, estabelecer novos contatos, afirmar-se diante do grupo, lidar com situações desconhecidas, além de lidar com tarefas competitivas e com situações de avaliação não são processos fáceis. O entrosamento da criança com a professora e com os colegas vai influenciar seu aprendizado. Por isso, a professora e a família não podem olhar apenas para o desempenho da criança, mas analisar também as suas dificuldades emocionais, os desafios que essa criança enfrenta e seu modo de agir. É fundamental ajudá-la também a se socializar.

Os problemas de aprendizado e de comportamento das crianças nas escolas estão aumentando?


Esses problemas sempre existiram e fizeram parte da realidade escolar. A diferença é que, hoje, são mais bem compreendidos e explicados, pois houve um avanço no conhecimento e nas possibilidades de tratamento em diversas áreas, como a psiquiatria, a neurologia, a psicologia e outras afins. Mecanismos genéticos vêm sendo desvendados, circuitos cerebrais identificados, vários novos medicamentos desenvolvidos, técnicas psicoterápicas aprimoradas, etc.

O que leva aos problemas de desempenho e comportamento na escola?


As causas dos problemas de comportamento e desempenho são muitas, por exemplo: retardo mental ou inteligência limítrofe; problemas neurológicos; problemas emocionais, como depressão e ansiedade; dificuldades de concentração e controle dos impulsos, como no transtorno do déficit de atenção e hiperatividade; comportamento de negação e oposição aos adultos; dificuldades associadas à leitura e escrita ou à matemática; doenças físicas que enfraquecem a criança; efeito colateral de remédios; uso de drogas; problemas na família (separação dos pais, luto, violência, alcoolismo etc.); problemas no ambiente escolar ou no método de ensino, dentre outras.


Todos estes tópicos são discutidos ao longo do livro "Criança, família e escola: promovendo o desempenho e a saúde emocional do seu filho". O texto foi escrito especialmente para pais e professores, procurando alcançar pessoas com os mais diferentes níveis de instrução e possibilidades de acesso ao conhecimento. Houve um esforço para que a linguagem permanecesse clara e fluente, fugindo, sempre que possível, dos termos técnicos da medicina. Por outro lado, é necessário que dados e conhecimentos científicos sejam apresentados às pessoas para que elas se familiarizem com eles, podendo se tornar agente ativos do processo de cuidado e prevenção dos transtornos mentais em crianças e jovens.

Estes problemas são genéticos, ou causados pelo ambiente em que a criança se encontra?


A interação entre os genes e o ambiente ainda não é totalmente compreendida, mas sabe-se o suficiente para poder dizer que a genética nem sempre é destino. Apesar das evidências claras de que grande parte dos transtornos de aprendizado e de comportamento tem ocorrência familiar, como por exemplo, o TDAH, o TOC e a dislexia, é importante ressaltar que o padrão de herança é bastante complexo e imprevisível, sendo o componente genético melhor compreendido, como a transmissibilidade de predisposições e tendências, as quais interagirão com fatores ambientais, resultando na eventual manifestação em maior ou em menor grau de um determinado distúrbio.


Circuitos neuronais que modelam aprendizado, memória, concentração, percepção e outras funções cognitivas são biologicamente modificáveis de acordo com os estímulos recebidos e as experiências vividas. Esta qualidade do sistema nervoso central é denominada neuroplasticidade, sendo mais acentuada na infância.

Como os pais reagem diante de um filho com dificuldades?


Quando um filho apresenta um desenvolvimento dentro dos padrões esperados, os pais, geralmente, sentem-se assegurados de que estão cumprindo bem os seus papéis. A experiência é a de gratificação por uma missão bem cumprida. Muitos pais se identificam tanto com o êxito de seus filhos, que acreditam ter "receitas de sucesso" aplicáveis a todas as crianças. Por outro lado, o filho que, por algum motivo, apresenta-se fora dos padrões previstos causa um abalo na estrutura e na autoconfiança de seus pais. Admitir que um filho tenha um problema de aprendizado ou de comportamento é um processo doloroso e demorado. Normalmente, as primeiras reações são de negação, ou de banalização, ou de transferência da culpa para outras pessoas, ou até mesmo de agressividade como forma de defender a criança.


A busca de um culpado pode resultar em acusações mútuas entre os pais, acreditando que o problema se deva a erros cometidos durante a gravidez, o aleitamento ou qualquer outro período. Caso se trate de um transtorno genético, os ressentimentos e a introjeção da culpa podem ser ainda maiores. É fundamental que essas emoções sejam conhecidas e admitidas, justamente para que possam ser transformadas em uma motivação construtiva que busque o fortalecimento da criança e da família.

O que pode ser recomendado aos pais caso o seu filho tenha um transtorno diagnosticado?


Que busquem informações com profissionais da educação e da saúde, que pesquisem através de livros ou da internet, que esclareçam todas as suas dúvidas, pois a compreensão racional de um problema é o primeiro passo na busca de soluções e ajuda a superar sentimentos contra-produtivos, como raiva e culpa. É importante que os pais, no fundo do coração, estejam convencidos da capacidade da sua criança. Consciente ou inconscientemente, ela perceberá isso e a crença, em especial, a crença dos pais é a luz que aponta o caminho.

Qual o papel do professor?


É de conhecimento geral que os professores enfrentam diversos problemas, como os baixos salários, as más condições de trabalho, a falta de material adequado, a insegurança ante a violência, dentre outros. Essas adversidades conduzem facilmente a um estado de frustração, amargura e resignação passiva. Como se tudo isso não bastasse, o aumento progressivo do número de alunos com transtornos de aprendizado e comportamento, diante da carência de profissionais que possibilitem o diagnóstico e tratamento adequados, assim como orientação pedagógica básica, cria uma sensação de isolamento e impotência.


Não há receitas simples. A natureza dos problemas é complexa e envolve diferentes atores, desde a própria criança, a família, o professor, a escola como instituição, a política educacional, a situação do mercado de trabalho, o pouco valor atribuído ao saber na nossa cultura etc. No entanto, é possível que o conhecimento aliado a mudanças de atitude (discutidas no livro) transformem o microssistema, a sala de aula, e que isso tenha um efeito na qualidade de vida do próprio educador e na qualidade de vida dos seus alunos.

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