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Falta água, asfalto, segurança e dignidade na região sudeste de Dourados

17 Fev 2020 - 16h54Por Vinicios Araújo
Foto: Vinicios Araújo/O Progresso - Foto: Vinicios Araújo/O Progresso -

Nos últimos anos Dourados foi bastante beneficiada por obras de investimento público e privado. Especialmente pelo Governo do Estado e incorporadoras, que lançam novos bairros já estruturados e com condições de moradia adequada. Andar pelo Centro é prazeroso: avenidas pavimentadas, limpas, fruto do programa de revitalização concluído no ano passado. Mas existe um lado de Dourados que muita gente não vê, em especial quem deveria. 

Moradores de comunidades e sitiocas na região sudeste de Dourados estão completamente abandonados. Por lá faltam redes de distribuição de águas, falta pavimentação asfáltica, falta infraestrutura com escolas e postos de saúde, além de segurança, iluminação pública e coleta de lixo adequada.

A reportagem de O PROGRESSO foi até lá e constatou que com esse ‘pacotão’ de necessidades, o que o poder público tem realmente deixado de oferecer àquela população é dignidade. 

A cuidadora de idosos Dária Ferreira, 64, recebeu neste início de ano um talão de IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana) com valor de quase R$ 2.500,00. Ela mora na sitioca Campo Belo II há cerca de 20 anos, hoje com o irmão. A contribuinte lamenta o estado de abandono e diz não acreditar mais na classe política. 

“Não tem água, a iluminação pública tá ruim, para entrar aqui é uma luta. Nem cascalhamento eles fazem aqui”, disse. 

Ela é motociclista há 15 anos e garante que no corpo tem marcas e cicatrizes de vários tombos já tomados no verdadeiro atoleiro que viram os corredores públicos da sitioca. 

“A gente sofre nessa situação. É difícil demais ter expectativa com políticos em ano eleitoral. A situação aqui é muito precária, é triste. É triste ver o lugar onde a gente vive assim”, disse. 

Dária conta que já pensou em mudar de casa, ir para a cidade, mas não tem condições de pagar aluguel no momento. Mas essa possibilidade não é descartada. “Quando a gente chegou aqui, éramos consideramos como área rural. Mas urbanizou, só que de urbano a gente não tem nada. Nem transporte coletivo a gente tem aqui. Quando chove caminhão de lixo não entra, aí só na semana seguinte”, reclama.

A cerca de um quilômetro de onde Dária mora, encontramos as vizinhas Bianca Celeste Bareiro Muniz, 22, e Jaqueline da Silva Gomes, 31. Elas relatam a precariedade na qual vivem e lamentam a falta de segurança. 

Ambas são mães de filhos pequenos, passam o dia em casa para cuidar das crianças enquanto os esposos trabalham para garantir a renda da família. Na ausência deles: portas trancadas, portão cadeado, somente janelas abertas. 

Jaqueline tem um cão de porte grande, que fica solto o dia todo na tentativa de inibir a aproximação de estranhos. 

“Direto passa um pessoal esquisito aqui, que a gente não conhece. Fica olhando pra nossa casa, morro de medo. O pior é que se você liga pra polícia ninguém aparece. Ali no Campo Belo I, onde minha mãe mora, eu já vi viatura fazendo ronda, mas aqui? Aqui nunca vi. Eu já fui embora dessa casa pra ir pra cidade, mas tive que voltar porque estavam destruindo tudo aqui. Até uma cadela que eu tinha mataram com veneno. Não é fácil”, conta Jaqueline. 

Ela está sem água há quatro meses. Quem fornece é a vizinha Bianca. No entanto, a colega está com data prevista para mudar, e a preocupação de Jaqueline aumenta já que o poço que tem no fundo de casa secou e no momento não tem condições de escavar outro. 

Questionada sobre as expectativas do ano eleitoral, a douradense foi efusiva. “Se passar político aqui na minha casa, vai comer barro. Já moro aqui há 16 anos, já foram quatro eleições, e nada muda. Já veio candidato a vereador, prefeito, todo mundo fazer mil promessas e hoje? Hoje ninguém lembra da gente”, reclamou.

Bianca fez coro para a indignação da vizinha. Disse que muitas vezes é preciso deixar as crianças sem ir à aula devido o ônibus não ter condições de entrar no barreiro. “Está ruim demais. De carro, de moto, atola tudo. Às vezes o ônibus [escolar] passa, às vezes vem e atola. Hoje mesmo meu filho não foi pra escola. Desde de que cheguei, há oito anos, já ouvi muitas promessas de asfalto, mas nada até agora. Se chove dois, três dias, aí que não sai nem entra mesmo”, disse.

A jovem reclama da falta de infraestrutura no bairro. “Aqui não tem posto, não tem escola, não tem creche, não tem nada. Quando a gente precisa disso vai pra cidade, quando dá. Porque muita gente não tem carro pra ir, ai fica precisando dos outros”, lamenta.

NA COMUNIDADE VITÓRIA

O casal Irandi Pereira dos Santos, 68, e Maria Olívia, 62, contaram à reportagem a situação precária vivida na Comunidade Vitória. Entre casas de alvenaria e barracos de madeira e lona, o que se vê é a falta de atenção do poder público em oferecer condições seguras de moradia. 

Eles são donos de um pequeno comércio que abastece a vila, distante 11 km do Centro. Quando o estoque reduz, em período de chuvas, é preciso pedir para o filho residente na área urbana que leve as mercadorias. “Ele também socorre a gente quando precisa levar as crianças para a escola, porque nesse barreiro não tem jeito de ir de moto”, afirma. O casal também fornece água do poço artesiano a vizinhos afetados. 

Aos fundos do mercado encontramos o pedreiro Reinaldo Gomes de Brito. Ele tentava resgatar o carro, que caiu em valeta às margens de um dos corredores públicos da comunidade.

“Eu estava vindo ontem [segunda-10/2] à tarde do serviço, na hora daquela chuva bem forte e aí eu resolvi passar por aqui achando que era mais seguro, devagarinho. Ai o carro derrapou, não tive como segurar. Ele desceu pra baixo e ficou assim. O pessoal tinha que arrumar isso aqui pra nós, se já pensou se estou com uma criança? Deus o livre, capotava esse carro e matava a criança. Moro a um quarteirão daqui, ainda bem que estava sozinho”, disse. 

Reinaldo precisou faltar no trabalho, mesmo com a cobrança da patroa. “Não podia deixar meu carro dentro do buraco. Se chover mais ele vai continuar descendo. Aqui a gente está precisando de tudo. A maioria do povo tá tomando água suja, porque tá tendo que furar poço”, contou enquanto amigos o ajudavam a guinchar o veículo com apoio de uma escavadeira.

CHUVA, MEDO E ALAGAMENTOS

Na chuva forte de segunda-feira (10/2), quando Dourados acumulou 47.3 milímetros em apenas 1h25, o imóvel de madeira da dona de casa Elaine de Almeida Rocha, 24, ficou tomado por água. Cama e móveis de madeira ficaram prejudicados. Nas frestas das paredes de madeiras, junto com a água entrava também muita lama. Na hora da chuva ela estava deitada, sozinha em casa. 

“Eu fiquei num apavoro. Encheu tudo de água, de barro. Graças a Deus meus filhos [2 e 6 anos] estavam na minha mãe, porque com o vento que tava, chacoalhando tudo e entrando água para dentro. Eu não conseguia levantar da cama”, disse. 

No dia seguinte ela levantou cedo para lavar a casa e colocar tudo no lugar. 

A vizinha dela, Elaine Roberta, 20, também teve a casa invadida pela enxurrada. O nível da água chegou a cobrir o pé. Ela lamenta as condições que vive com o esposo e o filho, mas diz não ter para onde ir. 

Para piorar, o irmão dela, desempregado desde dezembro, precisou abrigar-se na madrugada de terça-feira (11/2) após ser retirado de um imóvel abandonado na comunidade. 

Ele conta que por volta das 2h, homens fardados entraram na casa e exigiram a saída dele, da esposa e da filha de dois anos. Quando amanheceu, a mulher chegou a ir a pé até a Prefeitura de Dourados para solicitar ajuda, mas não teve assistência necessária. Quem puder ajudar o casal com alimento ou materiais para construção pode ligar no 67 9 9670-5072. 

“Eu não tenho nada, só os móveis, minha família e a disposição do dia a dia”, disse Jadson da Conceição Batista, 26

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