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Wilson Valentim Biasotto

O menino da laranja e o da maçã

16 Abr 2016 - 06h00
Em 1954, os seus pais venderam as vacas, galinhas, a carroça e até o velho cavalo alazão para mudarem-se para a cidade com um objetivo muito bem definido: botar os filhos na escola, estudar os filhos. Atingiram o objetivo, mas não foram poucas as dificuldades. Com o dinheiro amealhado pela venda de seus pertences, compraram um empório na cidade, no entanto, o pai podia ter sido um bom cafeicultor, mas jamais foi um bom negociante, então, acabou trocando o empório por um caminhão FENEME. Em seguida, trocou o caminhão por um automóvel, mas como nem sequer guiar sabia, trocou o automóvel por um terreno e o terreno virou dinheiro para arcar com as despesas domésticas.


O empobrecimento da família deu-se gradativamente: os bisavôs, proprietários de imensas fazendas, ricos cafeicultores (um deles tinha até cadeira cativa no cinema), legaram pequenos sítios aos filhos e estes conseguiram apenas sobreviver e sustentar a prole com o fruto do trabalho nas plantações de café e lavouras de subsistência.


Vários netos daqueles cafeicultores migraram para as cidades, onde tudo para eles era novo, era estranho. Um dos netos, aquele do FENEME, fez uma última tentativa de sobreviver como autônomo: comprava ovos de uma granja do interior para revende-los em São Paulo. Amargou mais um prejuízo e passou a sujeitar-se a quaisquer serviços, ora pedreiro, ora carpinteiro, ora pintor. A esposa costurava, bordava, vendia roupas de casa em casa. Mas não foram poucas as vezes, especialmente enquanto o marido estava em São Paulo, que ela tinha unicamente arroz branco como alimentação dela própria e dos filhos. A sua criatividade às vezes proporcionava uma mistura: catava ponteiros de aboboreiras ou as suas flores e com um ovo batido e um pouquinho de farinha fritava-as à moda milanesa.


Despojados de tudo, o casal alugara uma pequena casa no arrabalde da cidade, uma casa pequena, apenas quatro cômodos, com privada no quintal. Os banhos eram na bacia. A vida era difícil, a situação, de pobreza, mas a esperança era maior do que qualquer obstáculo.


Á tardinha, a molecada reunia-se na esquina para brincar. Quando começava a escurecer, boa parte da turma ia roubar laranja na chácara vizinha ao bairro, mas o menino recusava-se, sua mãe jamais o perdoaria. A educação era rígida, até demasiadamente rígida. Podiam até mesmo passar fome, mas roubar, jamais.


Aos poucos, as coisas iam se ajeitando.Quando o menino tinha entre nove e dez anos, bem cedo ia buscar leite para a vizinhança numa chácara próxima e assim salvava-se o leite. Três vezes por semana ia ao centro da cidade buscar carne para a família do açougueiro. Trazia dois pacotes, um bem grande para a família do açougueiro e um pequeno, normalmente com quatro bistecas, este para a sua família.


Comer uma bisteca com arroz era muito bom, mas e aquelas mulheres que iam ao açougue com um dinheirinho enrolado na mão e perguntavam se dava para comprar dois pés de galinha para uma canja? E aquelas mulheres que faziam de um pedaço de pano uma chuquinha e embevecia-a em uma caneca com água e açúcar para dar ao filho que chorava de fome?


O menino que não roubava laranjas teve muita sorte em ter pais tão guerreiros, tão obstinados a fazerem ele próprio e o único irmão estudarem, ao mesmo tempo em que a vida lhes propiciava ao menos o que comer.


Nesses dias atrás, um homem de setenta anos contava que quando tinha doze, ia para a escola e passava por uma feira. Naquela época, o Brasil não produzia maçãs, importava-as da Argentina. Eram maçãs grandes de um vermelho brilhante, enroladas em um papel azul. Esse menino, que muitas vezes também não tinha o que comer, pensava em roubar uma daquelas maçãs, mas afastava esse pensamento pela formação recebida de sua mãe. E todo o dia era a mesma história, as maçãs faziam com que o menino chegasse a juntar água na boca, mas sempre pensando em não envergonhar a mãe, jamais pegou uma maçã.


O menino que não roubava laranjas era eu e o que não roubava maçãs era o ex-presidente Lula. Talvez seja por isso, pela nossa formação, que Lula, mesmo se transformando em presidente do Brasil e eu, professor universitário, jamais negamos a nossa origem e sempre lutamos, cada qual com a sua força, para um país mais justo, mais fraterno, mais igual.


Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: [email protected]

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