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Editorial

10/12/2010 - Vitrine da Corrupção

10 Dez 2010 - 07h07
As centenas de operações pirotécnicas realizadas pela Polícia Federal nos últimos anos, quando criminosos de colari-nho branco foram colocados atrás das grades pela primeira vez no Brasil, prendendo-se desde desembargadores, juízes, advogados, servidores do alto escalão, governadores, deputados, prefeitos e senadores não foram suficientes para aplacar a sensação que a corrupção está cada vez mais entranhada nas estruturas de poder.

Pelo menos é o que revela a pesquisa anual Global Corruption Barometer que a Transparência Internacional divulgou onde 64% dos entrevistados afirmaram que a corrupção no Brasil aumentou nos últimos três anos, enquanto outros 27% dos brasileiros disseram que a corrupção se manteve estável nos três últimos anos e apenas 9% apontaram diminuição neste período.

O lado bom, se é que existe algo de bom numa constatação como essa, é que a corrupção parece crescer em escala global, tanto que sua percepção aumentou para 72% dos norte-americanos, para 70% dos ingleses e para 66% dos franceses.

Se nos países desenvolvidos o sentimento de aumento da corrupção chegou a níveis tão elevados, significa que os bra-sileiros não estão sabendo mensurar essa percepção, já que as nações em desenvolvimento como o Brasil são infinita-mente mais corruptas que as grandes potências mundiais.

No topo do ranking da corrupção aparece o Senegal, país onde 88% da população enxerga indícios de improbidade na coisa pública, enquanto o menos corrupto na Global Corruption Barometer é a Geórgia, com apenas 9% de percepção da sociedade em relação a esse câncer que sangra a coisa pública.

A Transparência Internacional revela que, na média, 51% das pessoas que residem nos países latino-americanos afirmam que a corrupção aumentou nos últimos três anos, enquanto 37% acham que ela se manteve estável e 11% acreditam em redução no período. Realizada em 86 países, o levantamento global revela ainda que 56% dos entrevistados acharam que a corrupção aumentou nos últimos três anos, enquanto outros 30% entenderam que a situação permaneceu igual e 14%, viram alguma diminuição.

Como não poderia ser diferente, a quase totalidade dos brasileiros entrevistados pela Global Corruption Barometer aponta que os partidos políticos, bem como o Poder Legislativo de maneira geral, são as instituições mais propensas a corrupção, tanto que numa escala de 1 a 5, sendo que o número mais baixo significa nem um pouco corrupto e o mais alto é extremamente corrupto, os partidos brasileiros receberam nota 4,1, com a polícia aparecendo em segundo lugar com nota 3,8 e o Poder Judiciário em terceiro com 3,5.

Mais uma vez, instituição vista como menos corrupta pelos bra-sileiros são as Forças Armadas com nota 2,4. O paradoxo neste estudo é que o mesmo público que aponta aumento na corrupção não esconde que recorre a ela na forma de pagamento de propina para ter acesso a algum serviço público ou para escapar de multas, de forma que um em cada 10 brasileiros já recorreram a esse expediente nos setores educacional, médico, Judiciário, policial, serviços de registro e licenciamento, serviços públicos como água, luz e saneamento, autori-dade fiscal, serviço agrário e alfandegário.

A Global Corruption Barometer revelou ainda que 25% dos mais de 80 mil entrevistados em 86 países confessaram ter pago propina no serviço público, com destaque negativo para a Libéria onde 89% da população já pagaram algum tipo de propina e o destaque positivo ficando com a Noruega e Reino Unido, países onde este índice ficou em apenas 1% da população.

O Poder Judiciário aparece como o setor para o qual houve maior pagamento de propina em toda América Latina, com 23% de contaminação e seguido de perto pela polícia com 19% e pela alfândega com 17%. No ranking glo-bal da corrupção, a polícia figura como a instituição que mais recebeu suborno, atingindo 29% dos mais de 80 mil entre-vistados.

Quando o foco do estudo se concentra apenas entre os latino-americanos, exatos 44% afirmaram ter pago pro-pina para acelerar processos nas esferas administrativas e judiciárias, confirmando a tese que a corrupção, alimentada pela impunidade, é o principal câncer do poder público em todo o planeta.

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