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Gisele Além

Onde é o lugar da mulher no empreendedorismo?

14 Mar 2019 - 14h02

Em minha escalada de mais de 16 anos como empreendedora vivi quase tudo o que uma mulher pode enfrentar no mercado de trabalho.

Fui uma jovem empreendedora iniciando aos 23 anos minha primeira empresa, fui estudante empreendedora, mãe empreendedora, esposa empreendedora, enfim, vivi todos os desafios que o mercado exige de uma mulher que se lança nessa empreitada.

Me lembro de um episódio em que atendi um senhor na empresa de telefonia que comandava junto com a minha sócia, em que ele de forma alguma acreditou que a empresa poderia estar sendo tocada por duas jovens mulheres, ele dizia que uma mulher jamais seria capaz de conduzir uma empresa daquele porte, que aquela empresa devia ser de um homem muito rico, nas palavras dele, que colocou duas mulheres a frente para não aparecer, em resumo, que éramos "laranjas" do negócio.

Me lembro de participar de reuniões em que minhas ideias não eram ouvidas quando saiam da minha boca, mas que as mesmas ideias quando vinham de um homem eram totalmente levadas a frente e implementadas.

Me lembro do descrédito de gerentes de banco, financeiras, agentes de crédito, enfim.

Mas a ideia desse texto não é falar das dores da caminhada e nem contar histórias tristes que infelizmente se repetem até hoje, e sim entendermos o lugar da mulher nessa sociedade que tem se transformado tanto, mostrar isso não só para os homens, mas para nós mesmas, para que saibamos qual nosso lugar, e tenhamos orgulho do que foi construído antes de nós e entender o que podemos construir a partir de hoje.

Essa semana me deparei com alguns dados que chamaram muito minha atenção com relação ao empreendedorismo feminino, e gostaria de compartilha-los aqui.

* 24.000.000 de mulheres são empreendedoras no Brasil;

* A taxa de empreendedorismo feminino de empresas com até três anos e meio de existência ficou em 15,4% frente aos 12,6% entre os homens. (Global Entrepreneurship Monitor 2016)

* 4 em cada 10 lares brasileiros são sustentados por uma mulher (PNAD)

* 57,2% dos estudantes matriculados nas universidades em cursos de graduação são mulheres (Senso da educação superior 2016)

Vejo com muita positividade esses dados, mas ao mesmo tempo percebo que ainda temos muito a fazer, pois ainda temos profissões predominantemente masculinas, onde as mulheres ainda são vistas como inferiores, e muito disso é responsabilidade nossa.


O assunto feminismo ainda é um tabu mesmo entre as mulheres, muitas têm do feminismo uma imagem estereotipada, que não faz jus a causa que as mulheres corajosas que vieram antes de nós lutaram para que tivéssemos o lugar que ocupamos hoje. É muito difícil para uma mulher bater no peito e falar, sou feminista, por que muitas realmente não entendem o significado da palavra.

Eu sei, exige coragem se posicionar, exige coragem falar, e ser responsável apenas pelo que diz, e não pelo que a pessoa entende, e isso pode levar a má interpretação, perda de clientes, ou criar uma imagem negativa sobre si mesma em uma sociedade que está tão enganada por falácias sem sentido e por tantas fake news.

Exige coragem se apropriar de um discurso que muitas vezes vai contra o que tem sido pregado a tanto tempo, que as mulheres são como flores, belas, frágeis e sensíveis, que perfumam o ambiente, etc. E se posicionar como fortes, destemidas, tão capazes quanto um homem para exercer qualquer profissão, que somos resilientes, que somos persistentes, inteligentes, que somos guerreiras, pois a imagem da delicadeza foi construída por tantos anos na nossa mente que muitas de nós ficamos apenas com essa imagem, esquecendo muitas vezes tudo que já suportamos para chegarmos onde chegamos.

Entender que feminismo é luta por igualdade, não é sobrepujar ninguém, mas sim exigir igualdade de direitos, respeito e humanidade para todos, independente do sexo.

Para mim feminismo é exigir que as mulheres empreendedoras tenham suas ideias consideradas e implementadas, independente da área de atuação, é termos o mesmo direito a crédito, mesmo a maioria dos gerentes de bancos e agentes de crédito sendo do sexo masculino, é podermos participar de uma reunião de negócios tendo o mesmo direito de fala, e não vejo como conquistar isso sem união.


Essa união vai exigir quebra de paradigmas, estudo, pesquisa, leitura e antes de mais nada posicionamento. Se posicionar contra todo tipo de injustiça é papel de todos.

Se o empreendedorismo feminino tem crescido, cresce também nossa responsabilidade de construir um mundo dos negócios mais justo e com mais equidade para todos, é o que eu quero para minha filha e para todas que vierem depois de mim.

 

@giselealem_coach

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