Ano novo: saúde e prosperidade

Por: Wilson Valentim Biasotto - 30/12/2016 09h42

Quase quarenta anos escrevendo crônicas e sempre evito repetições, no entanto em finais de ano sucumbo ao desejo de repetir algumas frases já ditas em ocasiões anteriores. Em primeiro lugar, como diziam meus antepassados, desejo a todos "salute e palanque a tutti e quantii", ou seja, saúde e prosperidade a todos e em quantidade. Palanque foi uma antiga moeda italiana, daí saúde e dinheiro, ou prosperidade, para sermos mais elegantes.

Outra situação que me ocorre é repetir o imortal Carlos Drummond de Andrade que, em sua genialidade, escreveu que :

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano // foi um indivíduo genial // Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão // Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos // Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente".

Sei que muitos poderão não concordar, achando que tudo continuará da mesma forma, que a mudança de datas não significa absolutamente nada na vida de cada um. Com ou sem Ano Novo a vida continua, as contas não desaparecem, o trabalho continua, enfim pensam que não importa nada a passagem de um ano para outro. Mas, além do que disse Drummont, sobre o milagre da renovação, veremos que as coisas estão em constante transformação e que as mudanças são significativas.

Parece incrível, mas a Terra gira em torno de seu próprio eixo a uma velocidade de 1.700 km por hora e ao redor do Sol a 107.000 km por hora. E tem mais, que parece também inacreditável, o Sol e todo o sistema solar gira em relação ao centro da nossa Galáxia a uma velocidade de 1.000.000 (um milhão) de km/hora. Então a pergunta que não cala é: como o tempo poderia ser apenas e simplesmente uma continuidade repetitiva? Isso, sem considerarmos que o Universo está em constante expansão, sabe-se lá para onde, para que, e a que velocidade?

Diz-se nas passagens de ano, que o velhinho está para morrer, referindo-se ao ano em seu final. Mas os anos não morrem, apenas passam, deixando marcas, lembranças, história. São lembrados como auspiciosos ou marcados por crises variáveis.

José, ao interpretar o sonho do faraó, foi o primeiro a estabelecer os ciclos, referindo-se aos sete anos de vacas magras como anos de frustrações e os sete anos de vacas gordas como tempos de fartura. Muito mais tarde, já no século 20, historiadores franceses e alemães estabelecerem a existência de ciclos de longa e de curta duração, favoráveis ao desenvolvimento ou catastróficos. Dentro dos ciclos de longa duração interpõe-se ciclos de curta duração, ora um pouco mais favoráveis, ora piores.

De qualquer forma, em cada ano temos sapos virando príncipes e príncipes virando sapos. Em Dourados, quinta-feira passada, "O Progresso" em suplemento especial, mostrou vários príncipes transformados em sapo: macas espalhadas pelos corredores com pacientes aguardando atendimento, crianças sem escola, praças e parques abandonados, patrimônio cultural em ruínas, ruas esburacadas e sujas, enfim 2016, para nossa cidade parece ter pertencido a um ciclo catastrófico.

Em relação ao nosso país, a crise se deu em níveis mais severos, sendo que o golpe perpetrado contra a presidente Dilma, fez com que o país retrocedesse à política neoliberal dos tempos de FHC. Inflação, desemprego, corte de programas sociais, corrupção, tudo o que parecia ser de responsabilidade de Dilma, avolumam-se no governo Temer. E a dilapidação do patrimônio nacional, como na época de FHC está sendo retomada. A Petrobrás entregou um campo do pré-sal a uma refinaria francesa a preço tão módico que os próprios jornais franceses manifestaram perplexidade e, ainda nessa semana foi vendida uma refinaria da Petrobrás no Japão por míseros 165 milhões de dólares.

Dizem que as coisas nunca estão tão ruins que não possam piorar, no entanto, há algo que não podemos perder jamais: a esperança. Portanto elevemos os nossos olhos, almejemos coisas melhores, façamos com que os nossos pensamentos positivos façam com que o mundo todo conspire para termos em 2017 um ano que traga à sociedade mais justiça, mais fraternidade, mais amor e igualdade.

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: biasotto@biasotto.com.br