A escolha de Serafina

Por: Davi Roballo - 28/12/2016 15h52

Conheci Serafina e Josué na casa de amigos comuns. Soube que Serafina, em sua juventude, vivia mergulhada em sonhos, entre eles, um havia se tornado obsessão, ela desejava uma TV em cores de vinte polegadas, um luxo para um ínfimo número de pessoas no início da década de 1980. O ofício de Serafina era o que hoje devido ao politicamente correto designamos de diarista, Josué, na época, era ferreiro da construção civil e os dois não tiveram filhos. Serafina levada pelo sonho de ter uma TV de 20 polegadas sempre fazia sua aposta na antiga Loto, pois acreditava que seria rica.

Josué sempre que ouvia os devaneios da esposa dizia que não precisavam de luxo, pois levavam uma vida boa com o necessário e que além do mais, esses desejos perturbavam a paz da alma e sempre enfatizava: Serafina ainda não entendeu que perderá tudo o que tem agora se um dia se tornar rica, pois rico não é quem tem bens materiais, mas quem tem coisas boas no coração e carrega a paz na alma.

Em meados do ano 1980, Serafina acertou as seis dezenas da Loto, levando para casa um prêmio em um valor, que ela levaria 750 anos para obter desenvolvendo seu ofício. Sua primeira atitude foi comunicar Josué sobre o prêmio e sobre sua decisão de mudar discretamente de cidade, o que Josué aceitou, ainda que contrariado.

Serafina mudou-se com Josué para uma cidade longe de sua terra natal e, a conselho de Josué, comprou uma casa boa, mas que mantinha de forma discreta sua nova posição financeira. No entanto, quando a TV com transmissão em cores e de 20 polegadas entrou em sua residência, Serafina sentiu certo desconforto estético, pois percebeu naquele aparelho uma determinada grandiosidade que ofuscou todos os demais móveis da casa. Serafina, mesmo com a insistência de Josué que argumentava que isso era bobagem, com exceção da TV trocou toda mobília da casa.

Após trocar todos os móveis Serafina finalmente percebeu um equilíbrio harmônico entre eles, no entanto, agora a casa estava parecendo fora desse contexto harmônico. Mesmo com protestos de Josué, Serafina comprou um belo apartamento que casou perfeitamente com a harmonia dos móveis, mas um problema maior apareceu. O marido estava destoando de toda aquela harmonia, pois ele era simples demais e, além de tudo, vivia protestando contra suas decisões, assim, nasceu uma desavença crescente a ponto do casal se separar.

Pouco tempo depois de separar-se de Josué, Serafina conheceu Amadeu, um homem de um fino porte, bons modos, impecavelmente sempre bem vestido e dotado de gostos extravagantes, o que encantou aquela mulher balzaquiana e emergente. Casou-se com Amadeu, andaram pelo mundo, no entanto, desde que conheceu o novo marido algo lhe perturbava, pois mesmo na companhia de um homem gentil e de fino trato, ela não se sentia bem, pois percebeu que seu apartamento, sua mobília, seus carros confluíam em uma sintonia perfeita com Amadeu e não com ela. Serafina percebeu que, mesmo sendo proprietária de tudo aquilo, ela não pertencia àquela harmonia, mas já era tarde, pois o dinheiro foi embora e Amadeu foi junto.

Dias difíceis vieram pela frente, pois Serafina teve de abrir mão de tudo que aos poucos foi se esvaindo de suas mãos, dias em que lembrava o quanto fora feliz na vida simples que levou por mais de 15 anos com Josué, um homem singelo que havia conhecido aos 13 anos e casado aos 16. De volta à antiga vida, procurou Josué e o ferreiro aceitou Serafina de braços abertos e, como um conto de fadas, vivem até hoje realizando tudo juntos em uma cumplicidade e harmonia que comove quem sabe de tudo que viveram e de tudo que passaram, pois Serafina precisou perder materialmente tudo para perceber que era rica e não sabia.

Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: daviroballo@gmail.com