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Sonhos e lembranças

21 Nov 2015 - 07h00



Quando nasce a criança, pais, avós, os parentes enfim, não deixam de fazer algum tipo de projeção sobre o futuro daquela criaturinha que ainda nem sequer sabe exatamente os caminhos que trilhará ao longo da vida. Sem dizer que os adultos temos sempre um palpite sobre com quem a criança se parece. Mas isso não vem ao caso. Importante é que a recém-nascida vai crescendo, se tornando criança, convivendo com os parentes que lhes servem de suporte para os primeiros aprendizados. Esse convívio com os parentes implica na formação da personalidade e do caráter da pessoa.

Quando era criança ouvi várias vezes de meu pai que eu deveria ser doutor e que então todas as tardes ele poderia tomar uma cerveja. Nesses tempos meu pai nem bebia, só tomou gosto pelo sabor etílico após os quarenta anos. Mas ao que tudo indica uma cerveja à tarde fazia parte de um imaginário das camadas populares que, aliás, Lula descobriu em sua última campanha quando disse que todo brasileiro tinha o direito de tomar uma cerveja à tarde. Mas isso também não vem ao caso, o que importa é que o meu pai queria que eu fosse doutor médico, não doutor advogado, pois insistia ele em dizer-me que se fosse advogado poderia ser movido a defender uma causa injusta. Claro que os advogados podem se recusar a defender determinadas causas, mas o que meu pai talvez quisesse dizer é que eu deveria ser uma pessoa justa.

Meu avô materno raramente ia à cidade. No sítio havia todo o básico para a subsistência e as vendas no distrito supriam alguma falta. Mas nas vésperas das grandes festas sempre era necessário buscar o guaraná e a cerveja que vinha envolvida por uma capa feita com os talos de arroz, costurados um ao lado do outro. Não era muita cerveja pois meu avô carregava essa sua compra dentro de um saco, desde a estrada onde parava o ônibus até a casa, uns dois quilômetros de distância. Vez ou outra ele me levava consigo e depois das compras feitas, que incluía azeitonas, chocolate em pó, dentre outras especiarias, nos sentávamos à mesa e tomávamos guaraná e comíamos pão com mortadela. Eram bons momentos para ouvi-lo.

Meu pai realizou o sonho de ter os filhos formados, mas nem precisou que lhe propiciassem a cerveja aos fins de tarde, ele mesmo dava conta. Mas o mais importante não era a cerveja e sim os filhos bem encaminhados, graças não somente à sua projeção, mas especialmente pela tenacidade de minha mãe que nos empurrava para o caminho dos estudos.

Quanto à mortadela até hoje tenho o hábito de vez ou outra fazer um sanduíche, oportunidade ótima para recordar-me da convivência sempre muito carinhosa que me dedicavam os familiares.

Quando nos tornamos maduros nos lembramos de nossos antepassados muito mais pelo jeito amistoso como éramos tratados do que por eventuais repreensões mais severas que, com certeza, não faltaram.

Fiz essas considerações, nem tão interessantes, de propósito. Ora se coisas tão simples podem nos influenciar, que dizer dos conselhos, das fábulas que nos contavam, e tantas outras coisas mais importantes na convivência entre a criança e a família? Hoje, quando vejo professores reclamando de que não dão mais conta de manter a classe em ordem, fico pensando se os parentes dessas crianças foram carinhosos com elas, se lhes contavam histórias, pegavam-lhes pelas mãos para um passeio, ajudavam-nas a se equilibrarem em uma bicicleta, enfim, será que o velho ditado de que a educação vem do berço ainda continua válida?
Talvez nossos pais e avós nem tivessem consciência de que com pequenos exemplos que nos davam, de trabalho, amor, honestidade, estavam nos tornando cidadãos honrados.

Hoje, beirando os setenta anos, quando tomo meu neto pela mão ou minha netinha no colo, vêm-me à lembrança aquele convívio com tios, avós e pais e bate-me uma saudade doce e ao mesmo tempo o desejo de dedicar aos meus pequenos, carinho idêntico ao que recebi, passar-lhes exemplos de boa conduta, enfim, não obstante as dificuldades desse nosso mundo contemporâneo, apontar-lhes caminhos para a vida, passando por ladeiras de amor, encruzilhadas de paz, vias expressas de humildade, mas com perseverança.

Educar com amor remete-nos ao provérbio que nos ensina que “não herdamos a terra dos nossos ancestrais, nós a pedimos emprestado de nossas crianças”.

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