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CIÊNCIA E SAÚDE

Reino Unido abre primeira maternidade voltada a sobreviventes de estupro

12 Jun 2016 - 10h56
Pavan Amara, de 28 anos, foi estuprada ainda
adolescente - Crédito: Foto: Divulgação/BBCPavan Amara, de 28 anos, foi estuprada ainda adolescente - Crédito: Foto: Divulgação/BBC
Um hospital de Londres abriu a primeira maternidade do Reino Unido voltada especialmente a sobreviventes de estupro.

A ideia surgiu como resposta a reivindicações de vítimas de violência sexual que diziam ter flashbacks quando se submetiam a exames do pré-natal e também ao dar à luz.

A clínica, localizada no Royal London Hospital, vai fornecer exames ginecológicos e apoio psicológico pós-parto a mulheres que tenham sofrido estupro. Também promete customizar cursos preparatórios para gestantes e ampliar o acesso a métodos contrapcetivos àquelas que ainda não engravidaram.

Todos os anos, cerca de 85 mil mulheres sofrem abuso sexual na Inglaterra e no País de Gales, segundo dados oficiais.

A criação da maternidade é fruto de uma iniciativa conjunta do NHS (National Health Service), o SUS britânico, e do projeto My Body Back (Meu Corpo de Volta, em tradução livre). A ONG foi fundada no ano passado pela britânica Pavan Amara, de 28 anos, que foi estuprada ainda adolescente.

O projeto coordena grupos de apoio em Londres voltados a mulheres vítimas de abuso sexual.

"Em nossas sessões, muitas mulheres disseram que queriam ter um bebê, mas não conseguiam se imaginar sendo tocadas. Elas ficavam temerosas de ter flashbacks e sem controle sobre seus corpos", afirmou Pavan ao jornal britânico Evening Standard.

Cerca de 85 mil mulheres são estupradas todos os anos na Inglaterra e no País de Gales

"Uma mulher foi mãe 15 anos depois de ter sido vítima de um estupro coletivo me contou que quando deu à luz teve um flashback horrível. Segundo ela, quando o médico tocou sua vagina, foi como se alguém a estivesse violando novamente", acrescentou.

Pavan alertou ainda para palavras e posições corporais que podem funcionar como "gatilho" para memórias ruins.

"Um médico disse a uma mulher que nos procurou: 'Relaxe porque tudo vai acabar logo". E ela se sentiu muito mal porque essas eram as mesmas palavras que ouviu do estuprador".

De acordo com a parteira Inderjeet Kaur, do NHS, "todas as mulheres devem ser assistidas adequadamente durante a gestação e o parto".

"Mas para aquelas que foram vítimas de violência sexual é especialmente importante que elas se sintam no controle e recebam cuidado contínuo. Isso aumenta a confiança delas, facilitando o trabalho das parteiras, evitando que memórias ruins sejam trazidas à tona e proporcionando uma forte ligação entre a mãe e o bebê", disse.

Projeto

Pavan decidiu lançar o projeto depois de ter sido estuprada ainda na adolescência. Seus agressores foram condenados à prisão perpétua e, depois de várias sessões de terapia, ela diz ter podido recomeçar sua vida.
Em entrevista à BBC no ano passado, ela falou sobre os efeitos psicológicos que sofria por causa do estupro. "Era asmática e não conseguia ir ao médico porque não queria ser tocada", explicou.

"Você está em uma sala com um homem e parece que aquela pessoa tem total controle sobre você", acrescentou. Pavan decidiu, então, criar um site e uma rede de apoio voltada para vítimas de abuso sexual como ela
.
Foi a partir daí que ela começou a ter a ideia de montar uma clínica voltada especialmente para mulheres que sofreram estupro.

"Conversei com médicos e enfermeiras e literalmente todo mundo com quem eu falava me dizia que tinha tido uma paciente que foi estuprada. Mas eles não sabiam como lidar com o assunto", disse.

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