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Delegado da PF atesta que Cimi financia invasões de terras em MS

29 Out 2015 - 07h00
Alcídio Araújo foi categórico ao garantir a interferência do Cimi no processo de invasão de terras. - Crédito: Foto: Patrícia MendesAlcídio Araújo foi categórico ao garantir a interferência do Cimi no processo de invasão de terras. - Crédito: Foto: Patrícia Mendes
O delegado da Polícia Federal, Alcídio de Souza Araújo, atestou na última terça-feira que o Cimi (Conselho Indigenista Missionário) financia invasões de terras produtivas em Mato Grosso do Sul.


O delegado foi um dos que prestaram depoimento durante a CPI do Cimi, criada pela Assembleia Legislativa para apurar se realmente o órgão é culpado pelas invasões de áreas na região sul do Estado, conforme acusações de produtores rurais.


Alcídio Araújo, que liderou o processo de reintegração de posse, foi categórico ao garantir a interferência do Cimi no processo de invasão de terras tituladas em Mato Grosso do Sul.


“Digo que sim. Há uma logística muito pesada para a ocupação, e para conseguir essas invasões precisa-se de dinheiro, ônibus. Tudo isso vem do Cimi”, declarou.


Disse que antes do confronto na Buriti, os indígenas assinaram um documento garantindo a saída pacífica do local, o que não ocorreu posteriormente. Para ele, o Cimi instigou os indígenas a resistir e partir para a guerra com a polícia.


De acordo com o delegado, o vereador Cledinaldo Cotócio afirmou, na presença de 19 policiais federais e do superintendente da PF, que a resistência dos indígenas em não deixar a fazenda era culpa do Cimi. O fato aconteceu em um posto de gasolina de Aquidauana, antes da chegada da Polícia Federal à fazenda Buriti.


O mesmo fato foi confirmado por um funcionário da Funai (Fundação Nacional do Índio), chamado Jorge, que tentou convencer os indígenas a sair pacificamente do local, mas teve que “sair corrido” da fazenda, sob ameaça de membros do Conselho Indigenista Missionário.


Alcídio Araújo contou que, ao chegar à propriedade, se deparou com o jornalista Ruy Sposati, do Cimi, e decidiu apreender a máquina fotográfica e o computador para averiguar as informações que havia recebido anteriormente. O coordenador regional do Cimi, Flávio Machado, também estava no local.


No equipamento, de acordo com o depoimento do delegado, havia um Manual dos Anarquistas, com 360 páginas, que ensinava, entre outras coisas, a fazer bombas caseiras. Esses e outros detalhes constam do inquérito 215/2013.


Alcídio confirmou ainda que os índios se movimentavam de forma organizada durante a tentativa de reintegração de posse, com técnicas de guerrilha. Os indígenas, segundo o delegado, empunhavam armas artesanais, de calibre 22.




DIVERGÊNCIAS


Também como depoente do dia, o índio terena Dionédison Cândido, da Aldeia Bananal (Aquidauana), divergiu da fala do delegado sobre a atuação do Cimi nas invasões de terras particulares em Mato Grosso do Sul.
Enquanto o delegado afirma categoricamente que o órgão não apenas incita, mas coordena e financia as invasões, o indígena alega que membros do Cimi apenas participam das Grandes Assembleias do Povo Terena, mas que não colaboram com o processo de invasão de terras.


Dionédison, que diz ser artesão e assessor parlamentar do deputado federal Zeca do PT, foi o primeiro depoente a ser ouvido na tarde de terça. Ele participou do processo violento de reintegração de posse ocorrido em maio de 2013 na fazenda Buriti.


O indígena declarou que o Cimi, assim como outros órgãos, são convidados a participar dos processos de reintegração para evitar truculência por parte da Polícia Federal. Entretanto, nega que o Conselho Indigenista Missionário participe das decisões tomadas pelos indígenas de invadir propriedades ou financie essas invasões.
Dionédison citou que o Cimi não foi a única instituição presente no momento do confronto na fazenda Buriti, de propriedade dos produtores rurais Ricardo e Jucymara Bacha.


De acordo com ele, também estiveram no local membros do CDDH (Centro de Defesa dos Direitos Humanos), OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), CUT (Central Única dos Trabalhadores), Fetems (Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul), Cedampo (Centro de Documentação e Apoio aos Movimentos Populares) e Coletivo Terra Vermelha.


O indígena foi orientado o tempo todo por seu advogado, Ilmar Renato Granja Fonseca, que é militante do Partido dos Trabalhadores. A presidente da CPI, deputada Mara Caseiro (PTdoB), repreendeu o advogado diversas vezes para não interferir no depoimento.


Dionédison se mostrou confuso em seu depoimento e em vários momentos recorreu a um caderno de anotações para respaldar suas declarações. Ele inclusive se contradisse ao ser questionado sobre sua participação na Grande Assembleia do Povo Terena dias antes do processo de reintegração de posse na fazenda Buriti.


Em um primeiro momento, afirmou ter participado dois dias da reunião, entre 8 e 11 de maio. Depois, alegou que só chegou na Buriti dia 18 de e que não esteve na Assembleia.


Outros três indígenas prestaram depoimento no mesmo dia: Inocêncio Pereira, Abélcio Fernandes e Cacilda Pereira. Entretanto, as perguntas dos membros da comissão foram respondidas a portas fechadas, sem transmissão da TV Oficial da Assembleia Legislativa, uma vez que os indígenas estão se sentindo ameaçados.


Eles são da aldeia Kurussu Ambá, de Coronel Sapucaia, e o teor de suas declarações segue sob sigilo. Ao todo, os depoimentos de terça-feira duraram mais de 6 horas.

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