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Variedades

Mundo maravilhoso e controverso

30 Jan 2016 - 07h00
Wilson Valentim Biasotto


Lá íamos nós estrada afora, máquinas trabalhando na colheita da safra de soja. Máquinas enormes, fabricadas com tecnologia tão avançada que não é qualquer um que as sabe dirigir. Suas bocas enormes jogavam para fora a palha e armazenavam os grãos já limpos. Meu neto, do alto de seus cinco anos, já não as teme, sabe distingui-las do Frank dos desenhos animados. Chegamos enfim diante do galpão, como diriam os gaúchos.


Paro o carro com reservada distância da entrada, mas o suficiente para ver um rapaz com os seus dezenove ou vinte anos quanto muito, fazendo a manutenção da plantadeira, pois nessa nossa região abençoada, enquanto os grãos da soja seguem para os armazéns os grãos de milho são lançados ao solo. No passado era o trigo que substituía a soja, mas por força do neoliberalismo desistimos de seu plantio e perdemos toda a pesquisa da Embrapa que já desenvolvia trabalhos avançados para a produção do grão duro, semelhante ao argentino e europeu. Mas isso, não vem ao caso, como diria o Dr. Moro quando encontra denúncias contra tucanos.


Desço do carro e fico pálido de espanto, como disse o poeta ao contemplar estrelas. O rapaz ouvia música em alto volume. Quem cantava? Pasmem! Elis Regina, “O bêbado e o equilibrista”, depois “Romaria”. Na sequência vem Chico Buarque, aquele que o coxinha chamou de M... Bela seleção, digo ao rapaz e, como resposta, ouço que são belas músicas antigas.


Ah! Tive vontade de dizer-lhe que velha era a vovozinha, mas parei, refleti e percebi que já vão cinquenta anos mais ou menos, desde que essas músicas fizeram sucesso. Velho para mim eram Chão de Estrelas, Boneca de Trapo, Laura, Noite Cheia de Estrelas, Boemia, Luar do Sertão e por aí a fora. Então ao invés de xingar a vovozinha do rapaz, entusiasmei-me, afinal enquanto lá na roça se está ouvindo Elis e Chico, na cidade é uma tragédia. Conto-lhes.


Como tenho dirigido algumas horas por dia, ouço rádio. Ah! Justo eu, que já fui ouvinte da Rádio Nacional e da Mayrink Veiga, ouço músicas que dizem que “meu companheiro é o velho Barreiro”, “que eu vou morrer, mas não paro de beber”, e outras tantas músicas que são verdadeiras apologias aos machões que fazem das mulheres gato e sapato. Indigno-me, mas julgo que as rádios estão tocando o que povo gosta de ouvir. Então, fico pensando no papel dos meios de comunicação.


Se as músicas que ouço são as únicas produzidas no Brasil, me desespero. Quem veio para substituir Chico, Caetano, Vinícius, Tom Jobim, Elis, Demônios da Garoa, etc.? Quem substitui ao menos Roberto Carlos, Erasmo, Jair Rodrigues etc ? Claro que em cada geração há coisas maravilhosas e outras não tanto. Mas, por que não ouço em nossas rádios ao menos uma ou outra música de Almir Sater, Alzira Espíndola, Geraldo e Gilson Espindola, Helena Meireles?


Mas vem notícias. Morreu assassinado, morreu acidentado, preso portando drogas. Pior, as notícias transmitidas pela manhã são reproduzidas à tarde, não sei não, mas parecem até mesmo serem gravações retransmitidas.


Quando cheguei em Dourados em 1974, as transmissões de televisão ainda não tinham chegado por aqui. A Rádio Clube de Dourados, para mim, a rainha soberana de todas as rádios que tivemos até agora, verdadeira escola de formação de radialistas, logo às sete da matina, tinha um jornal noticioso, com uma das vozes mais brilhantes do Brasil (Cloe Fazano) e dos não menos eloquentes Albino Mendes, Gilberto Orlando. E o Velho Tatau, nos esportes? Bem, outros grandes nomes haverão de me perdoar pelas falhas de minha memória. O Jornal Noticioso da Clube era dividido em três segmentos: notícias internacionais, nacionais e regionais. A agência France Presse emitia boletins em sequência ininterrupta e era o veículo mais usado pela Rádio Clube de Dourados.


Houve um tempo, pasmem, havia uma Rádio Relógio, só transmitia a hora, minuto a minuto, hoje canais de televisão transmitem ininterruptamente notícias do mundo todo, além, evidentemente, da Internet, que nos propicia instantaneamente notícias que, por exemplo, na Idade Média, demoravam um ano para chegar de Constantinopla até Paris.


Então, com todo o respeito, não é o Chico que é uma M..., mas a falta de jornalistas e radialistas investigativos, sem jabás, ou comprometimentos ideológicos, profissionais que formem opinião.

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: [email protected]

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