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Comportamento

Amor ou abuso: como identificar um relacionamento tóxico

Promotor diz que o abusador silencia a vítima aos poucos e faz uma desconstrução de sua identidade

22 Fev 2021 - 14h58Por Valéria Araújo
Amor ou abuso: como identificar um relacionamento tóxico - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Apesar de muito claro para quem está de fora, identificar um relacionamento abusivo não é fácil. As vítimas geralmente não conseguem perceber como e quando entraram nessa situação. O assunto repercute com o rápido romance protagonizado pela cantora Karol Conká e pelo modelo Arcrebiano, na 21ª edição do Big Brother Brasil, considerado um exemplo de como as atitudes de um dos parceiros pode impactar na relação e gerar transtornos ao abusado. O público que assiste ao reality acusa a sister de ter sido a pivô da relação conturbada, que gerou confusões para além do casal.

Vale ressaltar que não são apenas relacionamentos amorosos que podem ser abusivos. Na realidade, a relação entre pais e filhos ou mesmo relações de trabalho também podem ser abusivas. Tal dinâmica pode prejudicar o lado emocional, físico, psicológico, financeiro, cultural, social e sexual da vítima.

Em Dourados, o promotor de Justiça da 13ª Promotoria (Enfrentamento e Combate à Violência Doméstica e Familiar contra Mulher), Izonildo Gonçalves de Assunção Junior, explica que o relacionamento abusivo silencia a vítima aos poucos e faz uma desconstrução de sua identidade. “É uma forma de controle que começa com coisas sutis, como impedir que se saia com as amigas por exemplo, por uma prova de amor.  As atitudes como ir buscar no trabalho, ou dizer que determinada roupa não combina com a vítima, vai levando a uma forma de controle e diminuição da auto-estima do outro. Essa pessoa que sofre esse controle acaba ficando confusa e em determinado momento ela se sente culpada pelo relacionamento estar ruim”, explica.  

Izonildo explica ainda que é difícil identificar um relacionamento abusivo e a pessoa precisa prestar atenção aos sinais, como as pequenas renúncias que vem fazendo em benefício do outro e que terminam com grandes sacrifícios. “Ela vive em função do outro e acredita ser amor e isso vai levando a um estado de submissão o que faz ainda com que a vítima perca a própria identidade. Essa forma de controle que é uma forma de violência psicológica pode culminar em outros tipos como agressão física, além do feminicídio ou homicídio”, reforça.

Conforme Izonildo, geralmente quem passa por isso não consegue reagir e muitas vezes sente-se culpado pelo fracasso do relacionamento. “O ciumento demonstra toda a vaidade e insegurança  que ele tem. Isso pode ser uma reprodução de atos passados violentos sofridos por essa pessoa que agora é abusadora. É um relacionamento complicado e exige grandes sacrifícios da vítima, porque ela é obrigada a fazer mudanças rápidas e intensas no modo de viver dela como sair da escola, da faculdade ou parar de trabalhar. Ela é obrigada a fazer um isolamento social da família, dos amigos, da profissão. Essas pessoas abusadas vão perdendo esse vínculo social e a auto-estima. A pessoa, ao invés de ser livre e plena e capaz, acaba perdendo vínculos e refém dessa relação”, destaca.


Conheça o ciclo do relacionamento abusivo

O ciclo da violência é usado para identificar se uma mulher está sofrendo violência psicológica e física do marido em ambiente doméstico. O método, desenvolvido pela psicologa Lenre Alker é dividido em três etapas: aumento de tensão, ataque violento e a ‘Lua de Mel’. 

FASE 1: AUMENTO DA TENSÃO 
A primeira fase é marcada pelo chamado ‘aumento de tensão’. É quando o agressor cria atrito e passa a se comportar de maneira mais ameaçadora.  Há acessos de raiva. Ele também humilha a vítima, faz ameaças e destrói objetos. A mulher tenta acalmar o agressor, fica aflita e evita qualquer atitide que possa provocá-lo. As sensações são muitas: tristeza, angustia, ansiedade,  medo e desilusão, entre outras. 

FASE 2: ATO DE VIOLÊNCIA

Esta fase corresponde à explosão do agressor, ou seja, a falta de controle chega ao limite e leva ao ato violento. Aqui, toda a tensão acumulada na Fase 1 se materializa em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial. Mesmo tendo consciência de que o agressor está fora de controle e tem um poder destrutivo grande em relação à sua vida, o sentimento da mulher é de paralisia e impossibilidade de reação. Aqui, ela sofre de uma tensão psicológica severa (insônia, perda de peso, fadiga constante, ansiedade) e sente medo, ódio, solidão, pena de si mesma, vergonha, confusão e dor. Nesse momento, ela também pode tomar decisões − as mais comuns são: buscar ajuda, denunciar, esconder-se na casa de amigos e parentes, pedir a separação e até mesmo suicidar-se. Geralmente, há um distanciamento do agressor. 

FASE3: ARREPENDIMENTO E COMPORTAMENTO CARINHOSO

Também conhecida como “lua de mel” , esta fase se caracteriza pelo arrependimento do agressor, que se torna amável para conseguir a reconciliação. A mulher se sente confusa e pressionada a manter o seu relacionamento diante da sociedade, sobretudo quando o casal tem filhos. Em outras palavras ela abre mão de seus direitos e recursos, enquanto ele diz que “vai mudar”. Há um período relativamente calmo, em que a mulher se sente feliz por constatar os esforços e as mudanças de atitude, lembrando também os momentos bons que tiveram juntos. Como há a demonstração de remorso, ela se sente responsável por ele, o que estreita a relação de dependência entre vítima e agressor. Um misto de medo, confusão, culpa e ilusão fazem parte dos sentimentos da mulher. 

Por fim a tensão volta e com ela as agressões da fase 1.

Onde procurar ajuda?

Disque 180
Central de Atendimento à Mulher

Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Mulher/Dourados
Rua João Rosa Góes, 395 – centro – 79804-020. Tel.: (67) 3411-7708 / 3411-7746 – ramal 221. [email protected]

Viva Mulher – Centro de Atendimento à Mulher em Situação de Violência
Rua Hiran Pereira de Matos, 1520 – Vila Mary – 79831-250. Tel.: (67) 3424-5268 / 8468-6108. [email protected]

Del. de Atendimento à Mulher – DAM
R. Projetada B, 820 - Vila Bela, Dourados - MS. Telefone: (67) 3421-1177

Delegacia de Polícia Civil – 1ºDP
Rua Cuiabá, 1828 – Jardim Veneza – 79804-970. Tel.: (67) 3411-8060
 
Ministério Público Estadual
13ª Promotoria de Justiça –Violência Doméstica e Familiar contra Mulheres. Rua João Corrêa Neto, 400 – Santo Antônio – 79810-080. Tel.: (67) 3902-2872

Defensorias Públicas Cíveis
Rua Presidente Vargas, 177 – Jardim América – 79804-030. Tel.: (67) 3421-9997 / Fax: (67) 3422-5133

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