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Cláudia supera "maldição dos 35" e prova que mulher trans também tem lugar

15 Mar 2020 - 08h00Por Valéria Araújo
Cláudia supera "maldição dos 35" e prova que mulher trans também tem lugar -

Claudia Assumpção é uma exceção. Aos 55 anos, a servidora pública sobrevive no País em que mulheres como ela não chegam envelhecem. Isto porque o Brasil é considerado a nação mais perigosa do mundo para transgêneros. A expectativa de vida dessa comunidade é de 35 anos, menos da metade do resto da população, que chega aos 75,5 anos, de acordo com o IBGE. Só em 2019, o número de assassinatos em decorrência da transfobia (ódio ou aversão à identidade de gênero) já chegou a 123, sendo 65 vítimas travestis e 53 mulheres transexuais. "Somos poucas mulheres  trans que chega nesta idade ou mais,  eu me considero uma diva,  pois já ultrapassei os 3.5", disse. 


Os números são especialmente cruéis para mulheres trans e travestis em Dourados: 90% está na prostituição, se tornando assim principais alvo da violência. Claudia foi por outro caminho. Há 20 anos ela deixou de se prostituir. Hoje é casada e coordenadora do Núcleo de Políticas Públicas para LGBT+ em Dourados. Também já foi presidente da Associação de Gays, Lésbicas e Transgêneros de Dourados. Está cursando Serviço Social, fez diversos cursos de qualificação e sonha com a gastronomia após terminar a graduação. 


Segundo ela, a sua missão hoje é fazer com que as mulheres trans possam ter o direito de escolha a outra profissão que não seja a de se prostituir. Para isso vem sensibilizando o comércio para abrir vagas de trabalho além de buscar a qualificação para o mercado de trabalho para quem escolhe fazer como ela. 


Mas nem sempre foi assim. Claudia já passou por altos e baixos para lutar pelo direito de ser reconhecida como mulher. "Me considero assim desde sempre, mas aos 8 anos essa percepção ficou mais evidente tanto para mim quanto para a minha família. Lembro que me vi várias vezes com o vestido de noiva da minha mãe brincando com o meu vizinho. Preferia as bonecas ao invés dos carrinhos. Tinha o sonho de me casar e ser mãe.  Meus pais, muito conscientes não me agrediram, mas me obrigaram a ir para Campo Grande para me curar do que eles achavam ser doença. Passei pelos piores anos da minha vida lá porque para mim era uma condição desumana, uma tortura o que estavam fazendo. Graças a Deus eu jogava fora os medicamentos para pessoas com doenças psíquicas que me davam porque senão eu poderia estar lá até agora. Passei por uma bateria de exames e a junta médica da época constatou, após 5 anos, que eu não sofria de uma patologia, mas que 70% do meu cérebro era feminino e que não havia mais o que fazer a não ser me dar alta para que eu pudesse voltar a Dourados”, conta emocionada. 


Com a papelada na mão era hora de se assumir. Porém não foi tão fácil quando Cláudia esperava. Aos 16 anos foi expulsa de casa pelo pai que não aceitava que ela se vestisse com roupas femininas. Foi quando entrou para a prostituição para sobreviver. “Eu nunca gostei de vender o meu corpo. Mas era o que restava para pessoas como eu naquela época. Também não queria cometer crime algum. Após um ano meu pai me aceitou de volta e tive os melhores pais que uma mulher trans poderia ter”, lembra. 


A vida como prostituta foi cheia de altos e baixos. “Cheguei a ganhar mais de 7 mil dólares numa noite, mas também quase perdi minha vida, quando um cliente me levou para um caminho desconhecido no Paraguai e fiquei refém de 15 homens armados. Outra vez fui fazer um programa. Me estupraram e desmaiei. Acordei no hospital com ferimentos pelo corpo”, conta. 


Claudia diz que conta essas histórias como forma de incentivar que mulheres trans possam investir em outra escolha. “O grande problema é que muitas ainda acham que não vão chegar aos 35 anos. Fazem uso de álcool e drogas, muitas são dependentes e fazem programas por R$ 20 para alimentar o vício. Estão se matando aos poucos. Outras injetam silicone industrial em excesso pelo corpo sem se preocupar com o futuro, já que acreditam que ele não virá. Eu sou a prova de que podemos vencer a maldição dos 35 anos e viver uma vida como qualquer outra pessoa”, pondera, observando que os perigos na rua são constantes. “Vemos agressões a travestis constantemente por briga de ponto, sendo que a rua é pública. Vemos as profissionais do sexo tendo que pagar cafetões e ladrões para poderem trabalhar e a violência com que são expostas. Temos que mudar isso”, acrescenta. 


Segundo ela apesar das dificuldades, há avanços que merecem atenção. “Hoje é muito mais fácil do que antes para se trocar o nome, e para buscar respeito. Hoje há leis. Temos que fazer com que sejam cumpridas”, destaca, observando, por exemplo, que o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou no ano passado que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero passasse a ser considerada um crime. “O Núcleo de Políticas Públicas tem feito um trabalho constante para levar essas informações e tem buscado melhorias em todas as áreas para que as mulheres trans vençam o preconceito um dia. Se eu venci, todo mundo pode vencer”, finaliza.

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