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Armas e assassinos...

22 Jul 2011 - 08h24
                                                  Armas e assassinos... -
Isaac Duarte de Barros Junior *

Outrora, este solo fértil, manchou-se com o sangue das pessoas violentas. Isso, devido aos ferimentos lacerados em entreveros, iniciados por motivos fúteis. Júlio Capilé, médico douradense, pracinha da FEB e herói nos campos da Itália, comentando comigo a respeito daqueles idos, creditou aos revólveres calibre 44, algumas causas dessas mortes. Muitas, disse ele, aconteceram em brigas ou nas emboscadas vingativas.

Contou o veterano articulista deste jornal, que esse calibre foi cognominado naquele ciclo do desbravamento, como a “lei” do Mato Grosso. E pelo seu relato, esse estigma tratando-se desta região, foi perfeitamente merecido. Principalmente, quando alguém terminava morto pelos capangas dos fazendeiros e por pessoas das famílias tradicionais, que naquela época derramaram muito sangue. Tudo, porque nessa etapa do desbravamento, contrariar interesses, ameaçar alguém de morte, inclusive bater em gente adulta de qualquer sexo, sempre terminava n’algum assassinato.


Dessa maneira, muitos caboclos intransigentes, conhecidos dos douradenses natos e de nossos migrantes, acabavam vítimas desses homicídios. Seguramente, muitos eram sujeitos truculentos, que findaram seus dias numa cova rasa sem epitáfio. Aliás, o final dos avalentoados daquela época, era acabarem sepultados pesando algumas gramas de chumbo nas tripas, no cemitério Santo Antônio.


Assim, nesse período do banditismo, as pessoas cochichavam umas nos ouvidos das outras sobre os motivos, temendo represálias. E enquanto isso ocorreu, diversos moradores pioneiros, mataram brigando ou simplesmente alugaram os assassinos, mandando-os matar. Ao menos, o sistema funcionava desse jeito, em lugares do tamanho das paragens douradenses na metade do século vinte. Contavam os pioneiros, que o número dos assassinatos crescia, na medida em que chegavam os aventureiros. Muitos deles, reles malfeitores foragidos de outras localidades.


Nesse tempo, como não existiam leis proibindo cidadãos comuns de portarem revólveres, migrantes assentados e nativos, ao invés de usarem as suas armas escondidas, ostentavam-nas penduradas na cintura. Desse modo, nos salões de baile do pequeno povoado, sem existir seguranças, as pessoas armadas de revólveres, deixavam na entrada objetos letais. Os quais, após serem recolhidos, eram devolvidos no término dos saraus.


Desta maneira, havendo temores de linchamentos que poderiam acontecer na hora, justiçando o assassino pelas mãos dos presentes nessas festas, os desarmamentos inibiram muitos rapazes de praticarem desordens. Porém, alguns jovens, conseguiam penetrar armados nesses recintos festivos. A propósito, num deles, certa vez eu testemunhei uma dessas violências nos anos setenta, quando aconteceu algo inusitado comigo.


Naquela feita, profissionalmente recém-formado, costumava tirar as pessoas da cadeia. Porém, em assustadora passagem, vi-me na obrigação moral de prender um homicida. Nessa ocasião de triste memória, encontrava-me num baile no interior do Clube Social, onde ao meu lado ocupava a outra mesa, o atleta Luiz Carlos dos Santos. Então, repentinamente, ele recebeu dois tiros disparados pela arma do moço Alziro Barbosa. Sem titubear, levantei-me, caminhei na direção do assassino que trazia a arma do crime nas mãos, dando-lhe voz de prisão. Todavia, o jovem “Luizão” ferido, faleceu dias depois num hospital.


Hoje, acredito que meu gesto impetuoso, salvou a vida daquele matador. Porque o prendendo, livrei-o de ser linchado lá mesmo. Tempos depois, ele seria submetido ao Tribunal do Júri, que o condenou. Cumprindo sua pena, Alziro desapareceu da cidade. Entretanto, concluindo esses relatos passados, por respeito à memória de outros homicidas e suas vítimas, não citarei nomes lançados no livro dos culpados.


Porém, sei que esses crimes perpetrados no alvorecer douradense, enlutaram os corações de várias pessoas tradicionais, antigos povoadores desta urbe. Todavia, apesar daqueles atos impensados, diversos desses criminosos, foram também nossos pioneiros desbravadores. Contrariamente, dos agora tipificados como tal, os quais só desembarcariam nestas plagas, muitos anos depois destes fatos relatados...

Advogado criminalista, jornalista.

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