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A mulher Frankenstein

15 Jan 2011 - 16h54

#A mulher Frankenstein

#####Cristiane Segatto *


Todo ano cirurgiões plásticos americanos divulgam a aparência mais solicitada pelas suas clientes. A pesquisa, conhecida como America’s Body Annual Most Wanted, é divulgada em Beverly Hills por aqueles profissionais de branco que estão mais para celebridade do que para qualquer outra coisa. Eles apresentam uma lista das beldades que as pacientes querem copiar. Corrigir o corpo à força do bisturi é uma epidemia nos Estados Unidos. No Brasil, a coisa não é muito diferente.

Sempre que ouço falar nessa lista fico constrangida. Tenho pena das mulheres que aceitam se submeter a sucessivas intervenções para atingir o sonho – absolutamente impossível – de virar Gisele Bündchen. Não por acaso, o corpo de Gisele foi o mais requisitado nas clínicas americanas. Nada mais absurdo, considerando-se o grau atual de obesidade da maioria das americanas.

Gisele é um evento único. É um daqueles acontecimentos da natureza que não se repetem. Basta ver quão diferente ela é da própria irmã gêmea. Nem nascendo de novo uma mulher é capaz de se transformar na modelo. Gisele não é Gisele apenas porque é magra. Não existe regime ou lipoaspiração capaz de moldar a estrutura óssea e muscular dela. Nem sua estatura, seu porte e sua elegância. Gisele é aquele tipo de mulher que, mesmo que tentasse, não conseguiria ficar feia. De calça jeans rasgada, camiseta, chinelo, cabelos molhados e cara lavada, ela continua belíssima.

Diante desse fato, o que nos resta a não ser aceitar a realidade? Ok. Não somos e nunca seremos Gisele Bündchen. Que tal, então, perceber que existem inúmeras belezas possíveis? Basta querer enxergá-las e valorizá-las. Por que colocar a vida em risco e perder dinheiro para seguir um padrão absurdo? Uma simples cirurgia de apêndice é capaz de fazer qualquer um tremer de medo. Ninguém se interna feliz da vida. Mas se for para fazer uma cirurgia plástica, a coisa muda de figura. O medo desaparece, os riscos são varridos para baixo do tapete, a racionalidade é colocada no modo de hibernação.

Nesse campo, irracionalidade é o que não falta. Uma espiada nos atributos das outras famosas citadas na pesquisa nos faz, mais uma vez, suspeitar que as americanas estão à beira da loucura. Criaram um padrão de beleza absolutamente estreito, previsível, escravizante.

Que mulher as clientes dos cirurgiões plásticos querem ser? Pelo visto, só aceitam ser um tipo. Alguém que tenha um corpo magérrimo; pernas longuíssimas; peitos siliconados; boca carnuda; nariz pequeno, fino e pontudo; cabelos louros, lisos, compridos, com caracóis falsos cuidadosamente construídos no calor do baby liss; olhos grandes e castanhos; pele branca, branca, branca, sem uma pinta, uma sarda, um sinal.

Perdão por mencionar uma marca, mas a primeira frase que me veio à mente foi: “Dá pra tomar uma Kaiser antes?” Com tantas exigências, a vida que as próprias mulheres se impõem fica difícil. É claro que todas as celebridades mencionadas são lindíssimas. Mas querer copiar um pedaço de uma, um naco da outra, uma pitada de uma terceira é criar a mulher Frankenstein. Se alguém tiver a paciência de fazer uma montagem fotográfica com o “melhor” de cada uma delas, provavelmente comprovará o que eu disse.

A perfeição é sem graça. É monótona. Algumas vezes, é até feia. Conheço várias mulheres que estão muito longe desse padrão quadradinho que as americanas inventaram para se autoflagelar mas que fazem um sucesso danado com os homens. Os rapazes não me deixam mentir. Meninos, postem comentários, contem tudo pra gente.

Há muitas belezas possíveis. O Brasil, que nasceu e cresceu mestiço, é cheio de todas elas. É pródigo também num outro tipo de beleza. Quem já não passou um tempão tentando identificar por que um rosto parece bonito? Será que são os olhos? Não. Os olhos são comuns. A boca? Não, ela não tem nada demais. O nariz? O sorriso? As sobrancelhas? Ainda não foi desta vez.

Depois de um longo exame você continua achando a pessoa bonita mas percebe que a beleza vem da atitude, da elegância. É uma coisa fluida que pouco ou nada tem a ver com os traços físicos. É um atributo especial que não se constrói na mesa de cirurgia.

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