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A Igreja e o Código florestal: a favor ou contra?

01 Jul 2011 - 10h27
Dom Redovino Rizzardo, cs*


No dia 18 de junho, inúmeros órgãos de informação do Brasil se apressaram a publicar uma informação que trouxe mal-estar a alguns segmentos da sociedade: “A Igreja Católica é contra o novo Código Florestal”. A notícia veio na contramão de outra manchete, aparecida no dia 24 de maio, logo após a aprovação do projeto pela Câmara dos Deputados, quando vários deles o saudaram como uma “vitória do povo brasileiro”.

Vamos aos fatos. No dia 17 de junho, data consagrada ao combate à desertificação e à seca, no final do primeiro encontro do novo Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – eleito juntamente com a nova Presidência, durante a sua Assembleia, no mês de maio –, a entidade se sentiu na obrigação de divulgar uma nota sobre o assunto, em consonância com a Campanha da Fraternidade desse ano, cujo tema foi a vida no planeta terra.

O título que dei ao artigo pergunta se a Igreja é a favor ou contra o novo Código Florestal... Se se pudesse brincar com coisas sérias, responderíamos: “Nem a favor nem contra, antes pelo contrário!”. Ou seja, ela procura evitar a tentação dos que preferem as conjunções alternativas (ou... ou) às aditivas (e... e). “O correto é começar sempre distinguindo”, ensinavam os escolásticos.

Quem lê com atenção e sem preconceitos a declaração da CNBB, percebe que ela não se limita a questionar a flexibilização do uso de áreas de preservação permanente e a anistia das multas e penalidades a quem desmatou: «Estamos conscientes da grande importância de um Código Florestal no Brasil, porque o nosso País tem possibilidades de oferecer alternativas à crise civilizacional ancorada, sobretudo, na crise climática. Nossa preocupação maior está no impacto e nas consequências de uma lei deste porte na vida das pessoas e no meio ambiente».

Para a Igreja Católica, «não se pode subordinar a agenda ambiental à agenda econômica. A flexibilização da legislação ambiental, aprovada pela Câmara dos Deputados, motivo de muita polêmica, é prova contundente de que o País poderá se colocar na contramão deste importante debate mundial. As decisões sobre o Código Florestal não podem ser motivadas por uma lógica produtivista que não leva em consideração a proteção da natureza, da vida humana e das fontes da vida».

E, assim como fez há quatro anos, ao se juntar a outras entidades para recolher mais de um milhão de assinaturas em favor da Lei da Ficha Limpa, a CNBB, consciente de suas responsabilidades, mas também de seus limites, junto com a participação maciça dos católicos, pede o envolvimento de todas as forças vivas da nação, tais como a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e o Comitê Brasil em Defesa das Florestas e do Desenvolvimento Sustentável, criado em Brasília, no dia 7 de junho.

O objetivo do novo organismo é unir esforços para assegurar a manutenção de uma legislação florestal condizente com o progresso da humanidade. A articulação começou suas atividades lançando a ideia da campanha “Um milhão contra a devastação”, proposta que foi assumida pela Igreja Católica:

«Convocamos nossas comunidades a participarem desse processo de aperfeiçoamento do Código Florestal, mobilizando as forças sociais e promovendo um abaixo-assinado contra a devastação. Somos chamados a cuidar da natureza, a nossa casa comum, num processo de desenvolvimento sustentável, para que a terra e tudo o que dela provém sirvam para que todos tenham vida em abundância».

Desta forma, a CNBB se mantém fiel a uma convicção cada vez mais comum na Igreja atual, assim sintetizada pelos bispos latino-americanos, reunidos em Aparecida, em maio de 2007: «A criação manifesta o amor providente de Deus; ela nos foi entregue para ser protegida e transformada em fonte de vida digna para todos. A melhor forma de respeitar a natureza é promover uma ecologia humana que, aberta à transcendência, respeite a pessoa, a família, os ambientes e as cidades.


Deus entregou o mundo para todos. O destino universal dos bens exige a solidariedade entre as gerações presentes e futuras. Visto que os recursos são cada vez mais limitados, seu uso deve estar regulado de acordo com um princípio de justiça distributiva, respeitando o desenvolvimento sustentável».



Bispo de Dourados

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