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Remédios para emagrecer podem desencadear síndrome do pânico

O uso indiscriminado de medicamentos para se obter o corpo dos sonhos pode acelerar tanto a perda de peso como também um problema maior

22 Jan 2020 - 11h25Por Valéria Araújo
O médico psiquiatra Alessandro de Matos dos Santos, diz que se trata-se de uma doença caracterizada por episódios agudos de ansiedade - Crédito: O Progresso digitalO médico psiquiatra Alessandro de Matos dos Santos, diz que se trata-se de uma doença caracterizada por episódios agudos de ansiedade - Crédito: O Progresso digital

O uso indiscriminado de medicamentos para se obter o corpo dos sonhos pode acelerar tanto a perda de peso como também um problema maior que o desconforto dos quilos a mais: a Síndrome do Pânico.

Os anorexígenos mais comuns, a anfepramona e o femproporex, também agem no cérebro, inibindo o apetite, e, se não utilizados da maneira correta, podem ser o estopim para o desiquilíbrio na produção dos neurotransmissores noradrenalina e serotonina.

No Brasil, o consumo de anorexígenos é alarmante: 13 entre mil brasileiros - contra nove americanos, no mesmo universo. Em termos relativos, os índices fazem do Brasil o primeiro usuário mundial desses remédios, já que apenas 10% da população nacional sofrem de obesidade. Em muitos países os anorexígenos são proibidos. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 98,6% do femproporex e 89,5% da anfepramona produzidos no planeta são fabricados e consumidos em território brasileiro.

Um dos principais reflexos do estresse, a Síndrome do Pânico atinge cada vez mais a população. O crescimento do distúrbio chama a atenção de médicos especialistas que alertam inclusive, que a doença pode levar ao suicídio se não for tratada. Pesquisas da Organização Mundial da Saúde (OMS) destacam que pelo menos 4% da população sofre deste transtorno. Segundo o médico psiquiatra Alessandro de Matos dos Santos, trata-se de uma doença caracterizada por episódios agudos de ansiedade que se manifestam de forma inesperada e recorrente, marcados por medo ou desconforto intenso. Conforme ele a sensação é de um medo inexplicável e repentino que paralisa e dá a sensação de morte imediata.

A grande dificuldade de quem sofre com a síndrome é chegar ao diagnóstico, já que ela é muitas vezes confundida com outras doenças. Confira abaixo a entrevista com o psiquiatra Alessandro Matos dos Santos e aprenda como identificar as crises de pânico:

O que é Síndrome do Pânico? Pode-se afirmar que já é uma doença da vida moderna?

A síndrome do Pânico (Transtorno do Pânico), é uma doença caracterizada por episódios agudos de ansiedade que se manifestam de forma inesperada e recorrente, marcado por intenso medo ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos.

Durante a crise podem ocorrer 4 ou mais dos seguintes sintomas: 1) Palpitações 2) Sudorese 3) Tremores 4) Sensação de falta de ar 5) Sensação de Asfixia 6) Dor ou desconforto torácico 7) Náusea ou desconforto abdominal 8) Sensação de tontura vertigem ou desmaio 9) calafrios ou ondas de calor 10) Parestesias (sensação de formigamento) 11)Desrealização (sensação de irrealidade) ou despersonalização (sensação de estar se distanciando de si mesmo) 12) Medo de perder o controle e 13) Medo de Morrer. Na Grécia antiga Hipócrates já descreveu a existência dos transtornos ansiosos, portanto, não é uma doença recente, o estilo de vida e o estresse, é um dos principais fatores para a manifestação da doença.

Pesquisas da Organização Mundial da Saúde apontam que de 2 a 4% da população sofrem desse transtorno. Na sua opinião, Dourados acompanha esta estatística? Existe um aumento na procura?

 Não existem estudos específicos em nossa cidade, para falarmos em incidência e prevalência de casos, porém, a quantidade de pacientes que procura o atendimento especializado  é bastante grande. Antes de chegar ao Médico Psiquiatra é muito comum o doente ”peregrinar” em vários outros especialistas (Cardiologista/ Neurologista/Otorrinolaringologista/ Pneumologistaacreditando que seu problema tenha outra origem, e não ligada a aspectos emocionais e comportamentais.

O que causa esse distúrbio?

 Não se tem uma causa única para a manifestação deste distúrbio. Os ataques de pânico podem estar relacionados a fatores ambientais, históricos (acontecimentos ao longo da vida como abuso sexual, doença ou morte na família), uso de drogas, tabagismo, fatores genéticos (existe risco aumentado para transtorno de pânico entre filhos de pais com transtorno de ansiedade, depressivo e bipolar), (DSM V). Normalmente durante as avaliações observa-se que as pessoas que sofrem de ataque de pânico costumam apresentar muitos aspectos em comum: a) são pessoas extremamente produtivas no nível profissional, b) costumam assumir uma carga excessiva de responsabilidades e afazeres, c) são muito exigentes consigo mesmas e não convivem bem com erros ou imprevistos, d) são perfeccionistas com excessiva necessidade de estar no controle e de ter a aprovação dos outros, e) têm tendência a se preocupar demais com os problemas do dia-a-dia, f) possuem auto- -expectativas extremamente altas e tem fortes regras, h) não sabem diferenciar seus sentimentos i) tem uma grande tendência à não perceber suas necessidades físicas. Outras características que se observam são: a privação afetiva, a dependência emocional e a passividade nas relações interpessoais.

O uso de medicamentos e entorpecentes também podem provocar a síndrome? Qual o papel da maconha nos pacientes com transtorno do pânico?

Sim, o uso indiscriminado de anorexígenos (medicamentos para emagrecer), estimulantes, álcool, e o uso de drogas ilícitas (Cocaína, Ecstasy,) pode desencadear a síndrome do Pânico, bem como levar a outras doenças mentais. A maconha também pode desencadear crises de pânico bem como ser o gatilho para a manifestação de outras doenças mentais, como a esquizofrenia.

Que diferença existe entre ansiedade ‘normal’ e a que caracteriza a síndrome do pânico?

A ansiedade “normal” é um fator positivo, que nos prepara, para o que está por vir. É comum a todos, e faz parte da vida, nos auxilia a realizar planejamentos para o futuro, escolhas, gastos e a tomar decisões. Sempre digo a meus pacientes que o ansioso normalmente é mais “preparado”, pelo fato de se organizar com antecedência, e sempre estar pronto. Quando a pessoa começa a apresentar sofrimento com as expectativas, e isso passa a prejudicar as atividades do indivíduo, bem como suas relações interpessoais, entendemos como patológico, que necessita de tratamento médico.

Qual a sensação de quem apresenta crise de pânico?

É um transtorno caracterizado por ser imprevisível, normalmente as pessoas experimentam uma sensação muito grande de medo, por isso acabam mudando seus hábitos, evitando ambientes, grandes aglomerações, mantendo-se muitas vezes reclusas em suas casas, com a sensação de que uma “crise” , pode ocorrer a qualquer momento.

Quais são os gatilhos mais frequentes para as crises do transtorno de pânico? Por que uma pessoa passa 30 anos sem ter nada e um dia, por ter ficado fechada dentro de um elevador quebrado, começa a manifestar o problema em situações que nada tem a ver com esse fato?

É uma doença em que as crises se manifestam de maneira súbita, podendo ou não ter um “gatilho”, que varia muito, pois, deve-se levar em conta os fatores sócio-culturais de cada indivíduo. Durante a investigação clínica, é necessário se investigar a como foi a vida desta pessoa (desenvolvimento, dinâmica familiar, amigos, relacionamentos), capacidade de resiliência e investigar o momento atual desta pessoa.

Como é feito o diagnóstico? E porque o paciente geralmente demora para procurar o especialista?

O diagnóstico é clínico, realizado por Médico Psiquiatra. A demora na procura se dá por vários motivos, tais como: falta de informação, preconceito, questões culturais; normalmente outros profissionais são procurados antes do Médico Psiquiatra, devido a quantidade de sintomas clínicos, que a pessoa pode manifestar.

Como é feito o tratamento e ele deve ser mantido por quanto tempo?

O tratamento é feito, com uso de medicamentos (antidepressivos/ ansiolíticos), para controle das crises, acompanhamento psicoterápico e mudanças no estilo de vida. O tempo de tratamento depende de cada caso.

Como costumam evoluir os casos não tratados de transtorno do pânico? A doença pode levar a morte?

A evolução dos casos não tratados, não é boa, existe uma alta incapacidade funcional, aumento do risco de suicídio e a presença de comorbidades como: depressão e abuso de substâncias.

Terapias alternativas como meditação e ioga fazem algum efeito?

Sim, terapias alternativas como meditação e ioga ajudam na diminuição dos sintomas ansiosos, sempre associados ao tratamento clínico.

Qual é o papel do exercício físico nos transtornos de pânico?

A atividade física é importante no tratamento da maioria dos transtornos, ajuda a diminuir os níveis de ansiedade, e proporciona uma melhora global na saúde e qualidade de vida das pessoas.

Como a família e amigos podem ajudar o paciente?

A família é peça fundamental, pois, fornece o suporte e apoio necessários, para que a pessoa sinta-se amparada durante os períodos de crise, bem como a presença dos amigos.

Quando o paciente deve procurar ajudar o psiquiatra?

 O paciente deve procurar o Médico Psiquiatra, mais breve possível, para que o tratamento se inicie diminuindo o risco e incapacidade funcional, agravamento do quadro e a presença de comorbidades.

 

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