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Quase 15% dos partos feitos no HU de Dourados são de adolescentes

29 Fev 2020 - 14h00Por Marli Lange
Quase 15% dos partos feitos no HU de Dourados são de adolescentes - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação

Gravidez na adolescência ainda é um tema que preocupa algumas autoridades de saúde pelo Brasil afora. Em Dourados, segunda maior cidade de Mato Grosso do Sul,  o número de adolescentes que engravida ainda pode ser considerado bastante significativo, levando em consideração estatísticas de partos feitos na maternidade do HU (Hospital Universitário), que é referência na saúde pública da Grande Dourados. Apesar de ter reduzido, das 3.445 mulheres que deram a luz na maternidade em 2019,  493 foram meninas menores de 18 anos, ou seja, 14,32% dos partos. 

Esse número diminuiu em 2,76% em relação a 2018, quando 507 adolescentes deram a luz na unidade de saúde, que atende pacientes de toda região Sul. Em Mato Grosso do Sul, dados levantados pela Secretaria de Estado de Saúde (SES) apontam que em 2018, 6.495 adolescentes entre 10 a 19 anos engravidaram e deram à luz. Desses, 3.166 são adolescentes até 17 anos, sendo 344 até 15 anos.

Apesar de ter diminuído o número de adolescentes que engravida, o Brasil ainda está acima da média mundial. Atualmente, no Brasil, segundo dados de 2018 da OMS (Organização Mundial da Saúde), a taxa de adolescentes grávidas é de 68,4% bebês nascidos de mães adolescentes a cada mil meninas de 15 a 19 anos. O índice brasileiro está acima da média latino-americana, estimada em 65,5. No mundo, a média é de 46 nascimentos a cada mil.
A boa notícia é que esse número vem diminuindo desde 2015. De lá para cá, a queda é de 27%, segundo o Ministério da Saúde. 

Riscos 
Um estudo do Ministério da Saúde, chamado Saúde Brasil, indica uma das maiores taxas de mortalidade infantil entre mães mais jovens (até 19 anos), com 15,3 óbitos para cada mil nascidos vivos (acima da taxa nacional, de 13,4 óbitos). A gravidez no começo da adolescência apresenta riscos à vida da mulher, assim como a gravidez tardia. Além disso, o código penal brasileiro classifica como crime a relação sexual com menor de 14 anos.


Ao engravidar, muitas meninas abandonam os estudos. Cerca de 20% das adolescentes que engravidaram deixaram de estudar, segundo pesquisa do EducaCenso 2019 que contemplou cerca de metade das escolas públicas e privadas do país. Ao todo, 91.740 escolas responderam e informaram que, em 2018, 65.339 alunas na faixa etária de 10 a 19 anos engravidaram.


Foi o caso da jovem douradense, hoje maior de idade, que não quis se identificar. Ela contou ao O PROGRESSO Online que engravidou aos 15 anos, fruto de um relacionamento amoroso de um ano. Ela relatou que quando descobriu a gravidez teve que se ausentar da escola logo aos quatro meses de gestação devido a sobrecarga dos estudos conciliados ao trabalho.

Ela disse que a mãe,  quando descobriu a gravidez dela, resistiu à ideia, porém, apoiou a filha e hoje "não desgruda mais do netinho”, disse a jovem. Hoje ela encontra-se casada com o pai da criança, ela disse que a gravidez precoce ajudou a ficar mais madura e responsável, mas não aconselha porque é bastante dificil, teve que abrir mão de muitas coisas e o preconceito das pessoas ainda é muito grande. 

O que fazer? 
Em Dourados não se tem notícia de alguma campanha específica de prevenção direcionada às adolescentes promovida pela Secretaria Municipal de Saúde do município este ano. O setor de Atenção Básica informou que faz, no decorrer do ano, nas unidades de saúde nos bairros, orientações em geral sobre saúde, incluindo o tema, mas nenhuma campanha educativa específica e direcionada. 


Em 3 de janeiro de 2019, foi criada a Lei nº 13.798 instituindo Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, lembrada anualmente na semana que incluir o dia 1º de fevereiro. Neste período, atividades de caráter preventivo e educativo são desenvolvidas em conjunto com o poder público e organizações da sociedade civil para disseminar informações que contribuam para a redução da gravidez precoce no Brasil.


No Estado, este ano, alguns setores lembraram a data e realizaram campanhas específicas, como a Subsecretaria Estadual de Políticas Públicas para Mulheres, que realizou campanhas  nas Unidade Educacional de Internação (UNEIs). 

Em Campo grande,  onde pelo menos 13% das mulheres que tiveram filhos foram jovens menores de 19 anos, a Prefeitura promoveu campanhas nas UBSs (Unidades Básicas de Saúde) e UBSFs (Unidades Básicas de Saúde da Família). Na Capital, somente em 2019 foram mais de 1,8 mil crianças que nasceram de mães com idades entre 10 e 19 anos.


A Cassems (Caixa de Assistência dos Servidores do Estado de Mato Grosso do Sul) também realizou campanha, tendo em vista que das 11,6 mil meninas que fazem parte da  cartela de beneficiários, 617 ficaram grávidas entre os anos de 2015 e 2019 em Mato Grosso do Sul. 
Dados alarmantes que reforçaram a importância de falar sobre o tema, envolvendo atenção integral à saúde de meninos e meninas, beneficiados com o plano. “Não vai ser com imposição de quando uma pessoa deve começar a vida sexual que nós vamos ajudar, mas podemos orientar sobre as consequências, sobre prevenção”, comentou a ginecologista Tatiana Serra em materia publicada pelo site Campo Grande News.


O “Papo Reto” é uma das iniciativas da campanha de instrução para os jovens, idealizado pela Cassems. Nele, os adolescentes atendidos pelo plano se reúnem para rodas de conversa médicos e psicólogos, para conversar sobre as vivências da adolescência, como os perigos do uso de drogas, sexualidade, saúde mental e física.
“São 24 mil adolescentes na Operadora, a maioria em Campo Grande. Durante a infância, são acompanhados na Pediatria. No entanto, no período da adolescência, há um afastamento dos cuidados com a saúde. Algumas jovens ainda vão ao ginecologista, em decorrência da menstruação, mas os meninos só voltam à ir ao médico na vida adulta, geralmente, na Urologia. Precisamos cuidar dos nossos adolescentes”, pontua a diretora de Assistência à Saúde da Cassems, médica ginecologista e obstetra, Maria Auxiliadora Budib.   


Ministério da Saúde
Para incentivar o debate sobre a gravidez precoce e os riscos e consequências, o Ministério da Saúde lançou este mês a campanha “Tudo tem seu tempo: Adolescência primeiro, gravidez depois”, promovida em conjunto com o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, a proposta é despertar a reflexão e promover o diálogo entre os jovens e as suas famílias em relação ao desenvolvimento afetivo, autonomia e responsabilidade. 
“Alguém tem que falar que tem consequências e procurar uma maneira de minimizar o problema. Estamos falando de comportamento. Alguém tem que levantar esse assunto, pois o nosso número é muito alto”, alerta o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. “Este é um tema transversal e exige esforços de todos, com abordagens para diferentes fases da adolescência”, completou Mandetta.
 

Quando a adolescente engravida vítima de um estupro?  
O dado perverso é bem menor, mas acontece. Entre 2011 e 2016, o Brasil registrou mais de 32 mil casos de estupro de garotas entre 10 e 14 anos, dendo  1.875 delas acabaram engravidando de seus algozes. Não se sabe quantas dessas gestações foram até o fim. Mas o fato é que meninas que tiveram a infância usurpada pelo abuso sexual, além de lidar com as consequências do trauma, como a depressão, descobriram que carregavam no ventre um fruto da dor. Na maioria dos casos (68,5%),  o autor da violência que resultou em gravidez foi um parente ou alguém em quem a vítima confiava.
Em Mato Grosso do Sul um dos casos mais recentes e divulgado pela mídia este mês, foi de uma menina de 11 anos, que era estuprada pelo próprio pai e que ficou grávida. O homem acabou sendo condenado a 23 anos por violentar e engravidar a filha, segundo site Campo Grande News. 
A violência contra a menina ocorreu nos anos de 2016 e 2017. Por medo, menina se calou. Ela engravidou, mas bebê teve quadro de hidrocefalia e morreu. 
A menina contou que o primeiro abuso aconteceu quando retornava da escola para casa. No trajeto, foi levada para o mato e violentada. A violência se repetiu por mais de 10 vezes. O TJ (Tribunal de Justiça) negou o recurso do pai da menina e redimensionou a pena para 23 anos e quatro meses. O processo tramitou em segredo de Justiça.

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