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Proibido, silicone industrial mata travestis em Dourados

11 Fev 2020 - 10h57Por Valéria Araújo
Proibido, silicone industrial mata travestis em Dourados - Crédito: Divulgação Crédito: Divulgação
Proibido para fins de estética o silicone industrial já teria causado a morte de pelo menos sete pessoas em Dourados ao longo dos últimos anos. A estimativa é da coordenadora do Núcleo de Políticas Públicas LGBT+, Claudia Assumpção. Segundo ela, apesar dos riscos letais, 99,9% das travestis ainda utilizam o produto. “Nós fazemos vários alertas, mas o silicone industrial ainda é a alternativa principalmente para os travestis profissionais do sexo em Dourados”, destaca. 
 
Um dos fatores que atrai tantos consumidores de silicone industrial, apesar dos riscos, é a possibilidade de triplicar o tamanho dos glúteos e seios a um baixo custo.
Uma cirurgia para colocar uma prótese de silicone no local com um médico especialista em cirurgia plástica pode chegar a R$ 30 mil. O tamanho das próteses varia, mas costuma ficar entre 200 ml e 500 ml.
 
A aplicação de silicone industrial costuma ser realizada na casa da cliente, muitas vezes sem anestesia e qualquer tipo de cuidado sanitário. O preço por litro pode chegar a R$ 500. O volume colocado varia, nas redes sociais algumas mulheres relatam ter colocado até 12 litros.
O custo do silicone industrial é de em média R$ 70 o litro e sua indicação está especificada no rótulo: limpeza de carros e peças de avião, impermeabilização de azulejos, vedação de vidros, manutenção de esteiras.
 
Riscos 
Em Dourados, o médico mastologista Gabriel Ikejiri (CRM MS 8918 e RQE 5024), membro da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), explica que o uso de silicone industrial para fins estéticos é acompanhado de muitos riscos. 
“O produto como o nome já diz é de uso industrial, e portanto não há qualquer registro de segurança para uso no corpo humano. Os riscos são inerentes ao corpo estranho injetado em locais que ficam estáticos, ou seja, não são absorvidos. Consequentemente são fontes para infecções, necrose (morte) de gordura e pele, risco de migração e causa de embolias e obstruções vasculares com risco para a vida”, destaca. 
 
Anvisa
A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) divulgou um comunicado há dois anos no qual explica que proíbe o uso do silicone industrial em procedimentos estéticos. De acordo com a nota, para aplicações estéticas, o silicone original é matéria-prima para inúmeros tipos de próteses e implantes, mas nunca na forma líquida. Além disso, as próteses precisam ser aprovadas pela Anvisa e devem ser manipuladas por pessoas especializadas, habilitadas, e em hospitais com a estrutura necessária para atender o paciente da forma mais segura possível.
A orientação da Anvisa é que quem aplicou silicone industrial no próprio corpo procure um médico, mesmo que ainda não tenha sentido qualquer sintoma. "Somente um médico especialista pode avaliar a gravidade de cada caso”, informa.
 
Crime 
Apesar de proibido, muitas pessoas ainda se arriscam em aplicar o produto em terceiros. O acusado pode responder por exercício ilegal da medicina com prisão de 6 meses a 2 anos. Também é crime a venda de produto sem registro na Vigilância Sanitária e sem qualidade necessária para fins estéticos, com pena de 10 a 15 anos de reclusão.
 
Prevenção ao câncer de mama x preconceito
A Sociedade Brasileira de Mastologia tem feito um alerta importante a Comunidade LGBT+. Pessoas transexuais e transgêneros também podem ser acometidos pelo câncer de mama e precisam se consultar com o mastologista e realizar os exames periódicos, além de manter hábitos saudáveis no dia a dia.
 
No caso de mulheres trans, o risco está ligado aos hormônios de afirmação de gênero para reduzir o sofrimento psicológico e induzir mudanças físicas desejadas. Acredita-se que esse tipo de recurso hormonal possa gerar um aumento do risco de câncer na região. “Toda vez que a mulher trans usa estrogênio ela passa a ter uma mama e essa mama passa a ter risco de câncer, desta forma, ela precisa tomar os cuidados como toda mulher”, explica o mastologista João Bosco, membro da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM).
 
Desafios 
Apesar do alerta, em Dourados o preconceito ainda é uma barreira para homens e mulheres trans. De acordo com a coordenadora do Núcleo de Políticas Públicas LGBT+, Claudia Assumpção, muitas trans que buscam atendimento público passam por constrangimentos e algumas até desistem de procurar ajuda. Ela conta que na semana passada um trans masculino que precisava de exame ginecológico por recomendação médica teve o pedido negado porque uma profissional se negou a realizar o procedimento. O caso teve que ir para a Justiça. 
“As recomendações e alertas de Saúde são válidos, mas quando a comunidade LGBT+ procura o serviço, é discriminada. Muitas militantes tiveram que morrer para que hoje tivéssemos direitos e é por isso que temos que continuar resistindo para existir e buscar direitos iguais”, conclui. 
 
 
Serviço:
O núcleo de Políticas Públicas LGBT+ de Dourados, órgão ligado a Prefeitura, oferece serviços psicossociais e jurídicos. O setor fica localizado na Casa dos Conselhos, na Rua João Rosa Goes, 395, no centro de Dourados. O atendimento é das 7h30 às 13h30. Os telefones para contato são: 3411 7710 e 99903 7506.   

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