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Procura por vacina da covid caiu, mas maiores de 40 se beneficiaram de quarta dose

Pesquisa também indicou que proteção de vacinas baseadas em mRNA e adenovírus se igualam após 120 dias

17 Jun 2024 - 07h45Por Gabriele Mello/Jornal da USP
Enquanto 85% dos brasileiros tomaram as duas primeiras doses de vacina contra covid-19, a 4ª dose foi aplicada em menos de 20% da população de acordo com o Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde - Crédito:  Ricardo Botelho/Ministério da Saúde via FlickrEnquanto 85% dos brasileiros tomaram as duas primeiras doses de vacina contra covid-19, a 4ª dose foi aplicada em menos de 20% da população de acordo com o Painel de Cobertura Vacinal do Ministério da Saúde - Crédito: Ricardo Botelho/Ministério da Saúde via Flickr

Apesar da corrida por vacinas durante a pandemia, a busca pelas doses de reforço foi menor e houve até mesmo uma estagnação na procura. De acordo com o Painel de Cobertura Vacinal Covid, produzido pelo Ministério da Saúde, apenas 18% da população brasileira tomou a 4ª dose da vacina monovalente e, em São Paulo o número sobe para 23%. Mas, pesquisadores do Instituto do Coração (Incor) do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) analisaram a eficácia da 4ª dose de vacinas contra covid-19, e demonstraram que ela proporciona proteção contra internação e morte em adultos com mais de 40 anos.

Felippe Lazar Neto – Foto: Linkedin

 

Os pesquisadores ainda investigaram a eficácia das vacinas baseadas em mRNA – que utiliza apenas o código genético do sars-cov-2 para ativar o sistema imunológico, como a da Pfizer – e em adenovírus, que utiliza a estrutura de um adenovírus com uma proteína do sars-cov-2, como a desenvolvida pelas farmacêuticas AstraZeneca e Janssen. E, mesmo que a vacina de mRNA tenha um resultado melhor a curto prazo, após 120 dias, a proteção se iguala.

“Esse resultado é reconfortante no sentido de que mesmo em um esquema heterogêneo, nas doses do esquema básico, nós observamos uma proteção adicional significante”, afirma Felippe Lazar Neto, primeiro autor do artigo e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Ciências Respiratórias do Incor – HCFMUSP.

O trabalho foi desenvolvido pelo grupo Vebra Covid-19, em parceria com o Ministério da Saúde, que realiza estudos de efetividade de vacinas no Brasil e internacionalmente. O trabalho contou com informações de mais de 46 milhões de brasileiros vacinados com, pelo menos, a terceira dose de vacina contra o covid-19.

Comparação de desfechos através de bancos de dados

Os pesquisadores utilizaram quatro bancos de dados para analisar e acompanhar os participantes. O primeiro deles é o eSUS, que coleta informações sobre pessoas com suspeita de covid-19. Já o segundo, é o SIVEP-Gripe, que contém informações sobre casos de infecção respiratória aguda grave, assim como internações e óbitos por covid. O terceiro é o banco de dados nacional de vacinação e o quarto é o SIM, sistema de informação de mortalidade.

Otavio Ranzani – Foto: @otavio_ranzani/X

 

A forma como a pesquisa foi desenvolvida simulou um ensaio clínico, tipo de estudo em que se compara dois grupos, um que recebeu uma intervenção – como a vacina, ou um medicamento, por exemplo –, e outro que não. Como explica Otavio Ranzani, orientador da pesquisa e professor do Instituto de Saúde Global de Barcelona, “nós não temos como fazer um ensaio clínico hoje em dia, porque a gente assume que todo mundo deve se vacinar”. Por isso, a pesquisa foi realizada através do pareamento e construção das coortes simulando um ensaio clínico, forma descrita como inovadora pelos pesquisadores.

Com as informações dos quatro bancos de dados, foi feito o pareamento entre os indivíduos, que consiste em identificar pessoas semelhantes, mas uma delas tinha tomado a quarta dose da vacina contra covid, enquanto a outra não, com o objetivo de comparar o efeito da vacina. Como critérios, o estudo “levava em consideração, principalmente, idade, sexo, município de residência, dia da vacina, se é um trabalhador de saúde ou não, raça, e tipo de vacinação prévia”, conta Lazar Neto.

Dessa forma, os pesquisadores poderiam acompanhar essas pessoas e analisar os diferentes desfechos aos quais elas seriam submetidas, considerando para a pesquisa, hospitalização até 21 dias depois do diagnóstico, ou morte por covid-19 até 28 dias após o diagnóstico.

 

Esquemas de vacinação heterogêneos acontecem com a aplicação de um tipo de vacina no esquema primário (duas primeiras doses), seguida da vacina de outra farmacêutica nas doses de reforço – Foto: Myke Sena/Ministério da Saúde via Flickr

 

Esquema vacinal heterogêneo

No Brasil, assim como em outros países de média e baixa renda, os esquemas de vacinação foram compostos de diferentes combinações entre as vacinas Coronavac, Astrazeneca, Pfizer e Janssen.

Pesquisas anteriores, destaca Ranzani, foram feitas majoritariamente em países de alta renda, em que houve predominância do uso da vacina de mRNA, a da farmacêutica Pfizer. “O cenário é diferente. No Brasil, a gente tem a possibilidade de avaliar outras combinações de vacinas e outros tipos de doses adicionais. Então, [a pesquisa] ajuda muito não só o Brasil, mas também a OMS [Organização Mundial da Saúde], porque o cenário que a gente tem no Brasil reflete os países de baixa e média renda”, explica.

Como afirmam os pesquisadores, existe uma vantagem clara de tomar a quarta dose. Mas a pergunta sobre a eficácia de esquemas vacinais heterogêneos seguia em aberto. Com as descobertas, relata Ranzani, países de baixa e média renda, assim como a OMS, encontram embasamento para orientações e programas nacionais de vacinação.

Além do esquema vacinal heterogêneo, a pesquisa também abrangeu um grupo mais jovem e diverso, em relação aos estudos já feitos sobre eficácia de doses de reforço de vacinas contra covid-19, afirma Lazar Neto. Em países de alta renda, “vacinaram pessoas um pouco mais idosas do que no Brasil, como 60 anos ou mais ou 80 anos ou mais, e pacientes residentes em casas de repouso. Então, a gente esperava efetividade da vacina, mas a gente não tinha um parâmetro muito fácil para comparação direta na literatura”, completa.

 

Sistemas de vigilância e vacinação no Brasil

Parte essencial para a pesquisa, Lazar Neto e Ranzani destacam o papel dos bancos de informações – eSUS, SIVEP-Gripe, Banco de dados nacional de vacinação e mortalidade. “Nosso estudo mostra que o Brasil tem uma quantidade de dados bastante grande e bem coletada, de alta qualidade”, diz Ranzani.

Lazar Neto ainda lembra que o Brasil é considerado exemplo em termos de vacinação, reafirmando a capacidade de publicação de evidências científicas em relação à covid-19 e os desdobramentos da vacinação do nosso País. Para o pesquisador, o trabalho reforça o papel do Brasil em trazer informações de qualidade neste tema.

Mais informações: e-mail [email protected]

*Estagiária sob orientação de Luiza Caires

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