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Pode ser possível prevenir e tratar inflamações com menos efeitos colaterais

Flávia Carla Meotti fala sobre uma patente em desenvolvimento que se refere a uma classe de compostos com potencial de atividade anti-inflamatória e diferente de outros testados com o mesmo objetivo

06 Dez 2023 - 08h00Por Alessandra Ueno*/Jornal da USP
Inflamações são uma forma de defesa, mas é preciso cuidado  - Crédito:  redgreystock/FreepikInflamações são uma forma de defesa, mas é preciso cuidado - Crédito: redgreystock/Freepik

“Aí! Acho que meu machucado inflamou.” É muito comum escutar que não se deve “cutucar” machucados, espinhas ou quaisquer outros ferimentos, pois irá inflamar. 

A inflamação não é, necessariamente, uma coisa ruim. Ela é a reação do corpo contra infecções ou lesões para potencializar a recuperação. Porém, caso a defesa do corpo seja muito intensa e descontrolada, é possível levar até a morte.

Por isso, a patente Composto para a prevenção e/ou tratamento de inflamações foi desenvolvida. “A patente se refere a uma classe de compostos com potencial de atividade anti-inflamatória. Usando um método de triagem virtual, selecionamos alguns compostos com potencial de inibir uma enzima responsável pela inflamação, a mieloperoxidase“, explica Flávia Carla Meotti, professora do Instituto de Química da USP e uma das criadoras da patente.

Como funciona?

A mieloperoxidase (MPO) é uma enzima derivada de leucócitos que catalisa a formação de numerosas espécies reativas oxidantes. Por mais que sejam integrantes da resposta imune, elas também podem estar relacionadas a certos danos teciduais durante a inflamação.

Flávia Carla Meotti – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

O processo de identificação da classe do composto da patente partiu de uma triagem inicial e, após, os selecionados foram testados com a enzima isolada para medir se, de fato, conseguiriam inibi-la. Aqueles com capacidade inibitória foram posteriormente testados usando células do sangue. 

“Por último, apenas os quatro melhores compostos foram testados em camundongos para provar se são capazes de diminuir o quadro de uma inflamação como a gota — artrite induzida por cristais de ácido úrico”, comenta Flávia. 

Em resumo, o processo se assemelha a um funil, no qual a triagem virtual seleciona dezenas de compostos com potencial de serem inibidores, mas os testes iniciais de laboratório filtram os que não são. “Assim, os testes em camundongos são feitos utilizando um número muito reduzido de animais, o que é um requisito pelo Conselho de Ética da Universidade”, completa.

Importância

Ter um composto com essas características é muito importante, ainda mais quando ele possui menos efeitos colaterais do que os outros já testados. Além disso, também apresentou uma atividade anti-inflamatória superior à de um composto já usado na inflamação, o ácido mefenâmico. 

“Os efeitos colaterais aparecem quando o composto inibe outras enzimas além daquela que está sendo usada como alvo no estudo. O que foi patenteado apresentou um modo de inibição que parece ser muito peculiar para esta enzima, aumentando a chance de ser específico, evitando-se efeitos colaterais”, explica a professora.

Flávia ainda acrescenta: “A inibição da mieloperoxidase é muito interessante para combater a inflamação crônica, tendo em vista que esta enzima está exclusivamente presente na inflamação e não participa de outros processos fisiológicos”. A atividade desta enzima não está associada apenas à artrite, como no caso da gota, mas também a doenças cardiovasculares e neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. 

Mercado

Com essas características diferentes de outros compostos testados com o mesmo objetivo é importante que a patente chegue ao mercado. “Para dar prosseguimento ao estudo, precisamos passar por uma série de novos testes, por exemplo, saber o quanto do composto é absorvido quando ingerido via oral, saber o quanto dele está presente no sangue após a ingestão, se apresenta efeitos indesejáveis em indivíduos saudáveis e, finalmente, se é capaz de reduzir a inflamação em humanos ou, ainda, se é capaz de diminuir a progressão de doenças inflamatórias crônicas, como a neurodegeneração”, enumera Flávia.

Para que isso seja possível, ela ressalta que é preciso uma parceria com indústrias que queiram investir nesses estudos. “Se o composto falhar em qualquer um dos itens, poderão ser feitas alterações químicas na molécula, visando a contornar o problema.” 

É por essa razão que a patente versa em torno da classe química do composto e não apenas de um composto em si. “Isso nos dá o direito de invenção para qualquer composto que seja obtido a partir do composto inicialmente identificado”, comenta Flávia.

*Estagiária sob supervisão de Cinderela Caldeira e Paulo Capuzzo

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