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Criança com hiperatividade pode ter transtorno de déficit de atenção

24 Fev 2016 - 08h42
Criança com TDAH é inquieta, fala demais, mexe em tudo, larga as tarefas pela metade. - Crédito: Foto: DivulgaçãoCriança com TDAH é inquieta, fala demais, mexe em tudo, larga as tarefas pela metade. - Crédito: Foto: Divulgação
A criança parece não ter sossego. É inquieta, fala demais, mexe em tudo, larga as tarefas pela metade. Perturba pelo excesso, desafia a autoridade dos pais ou dos professores e, às vezes, tem atitudes impulsivas. Não tem limites, nem foco. Concentra-se apenas naquilo que lhe dá prazer, mas tem dificuldade em manter a atenção em outras atividades, especialmente as mais longas e repetitivas. Na escola, atrapalha as aulas, é desatenta e vai mal nas provas. Às vezes, irrita tanto os colegas que se torna persona non grata. Vira a criança que ninguém convida para brincar em sua casa.


Comportamentos desse tipo podem ser indicadores do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), problema neurobiológico de fundo genético que afeta de 3% a 5% das crianças e acompanha cerca de 50% delas ao longo da vida. Elas poderão sofrer com prejuízos de aprendizagem e sociabilidade e, quando adultos, ter mais dificuldade nos relacionamentos, no emprego, na vida social e atitudes impulsivas, que os tornam mais suscetíveis às drogas ou às doenças sexualmente transmissíveis, por exemplo. Um indivíduo com TDAH pode até ser brilhante em atividades que o atraem – se gostar de xadrez, por exemplo, vai se tornar um exímio jogador, mas possivelmente terá várias dificuldades relacionadas com o transtorno, com prejuízos para ele e, eventualmente, para as pessoas com as quais convive.


Relacionado a distúrbios de neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina, o TDAH afeta áreas do cérebro associadas ao autocontrole e à atenção. “O diagnóstico é clínico e tem de ser criterioso, envolvendo um levantamento cuidadoso do histórico da criança. Além dela e dos pais, às vezes precisamos conversar também com professores e outras pessoas da rede de relacionamentos da criança”, diz o Dr. Erasmo Casella, neurologista da infância e adolescência do Hospital Israelita Albert Einstein.


O passo inicial é a aplicação de um questionário simples, o SNAP-IV, baseado no Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação Americana de Psiquiátrica, que avalia nove critérios de déficit de atenção e nove de hiperatividade e impulsividade. “A ocorrência de comportamentos associados a pelo menos seis desses critérios, por mais de seis meses, pode indicar TDAH e exige aprofundar as investigações clínicas”, afirma a Dra. Letícia Sampaio, também neurologista da infância e adolescência do Einstein.


Disponível na internet, em sites como o da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (http://www.tdah.org.br/br/sobre-tdah/diagnostico-criancas.html), o questionário pode ser utilizado por pais e professores. Mas os resultados devem ser vistos apenas como sinalizador de um eventual transtorno. Quem faz o diagnóstico é o médico.


Antes de tudo, outras possibilidades devem ser descartadas. O comportamento inadequado pode derivar de problemas psicológicos, de situações de estresse, como uma morte na família ou a separação dos pais, ou simplesmente de má educação, caso, por exemplo, de crianças criadas sem a imposição de limites. Também é preciso descartar problemas de saúde que podem estar por trás de determinados comportamentos, como déficit de visão, audição, distúrbios do sono, dislexia, depressão e ansiedade, entre outros. No entanto, alguns desses problemas também podem ser comorbidades associadas ao TDAH. Até 70% das crianças com TDAH apresentam outros quadros associados.


O tratamento costuma envolver medicamentos estimulantes (há também medicamentos não estimulantes, mas são menos eficazes), além de terapia comportamental e aconselhamento familiar e escolar. Dependendo das dificuldades associadas, pode ser necessária, ainda, a atuação de outros profissionais, como fonoaudiólogo, psicopedagogo e psicomotricista.


É importante nunca rotular a criança como hiperativa ou algo parecido. Mas é preciso ajudá-la a entender que determinados comportamentos são inadequados, orientá-la, mostrar os limites e reconhecer ou elogiar as ações positivas. Os pais não devem gritar ou ter atitudes agressivas, pois os filhos são espelhos dos pais e agirão da mesma forma”, afirma o Dr. Erasmo. “Na escola, os professores também podem adotar iniciativas como colocar o aluno com TDAH na frente, permitir um tempo maior para que ele faça a prova e substituir uma tarefa de execução mais demorada por várias outras que possam ser realizadas mais rapidamente”, exemplifica a Dra. Letícia.


Por parte da família, dois erros básicos devem ser evitados. Um deles é achar que toda criança agitada tem TDAH. A maioria das que chegam ao consultório médico não tem. O outro erro vai na direção oposta: não reconhecer no filho comportamentos atípicos, achar que “fulano (hoje adulto) também era assim”, que “isso vai passar”, ignorar as reclamações da escola ou atribuir a falhas do professor as dificuldades de aprendizagem.


O melhor a fazer é consultar o pediatra que, se suspeitar do transtorno, encaminhará o caso para um especialista. Diagnóstico preciso e tratamento adequado são os melhores caminhos para enfrentar o TDAH e evitar os prejuízos que ele pode trazer na infância e, mais tarde, na vida adulta.

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