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EDUCAÇÃO

Educação na pandemia vira desafio para os pais em Dourados

Educadora comenta modalidade EAD no sistema público de ensino

25 Mai 2020 - 09h48Por O PROGRESSO
(Foto: Divulgação) - (Foto: Divulgação) -

Que a pandemia do novo coronavírus vai transformar todas os setores sociais, isso é indiscutível. As metodologias de trabalho, de investimento financeiro, as formas de se relacionar e até mesmo a maneira de se aprender: todas elas devem sofrer mudanças importantes. Na educação, a pandemia provou o valor da escola e do professor. Também levantou debates importantes sobre a democratização da internet, uma vez que esta tem sido a ferramenta mais explorada para minimizar os distanciamentos provocados pela pandemia.

Na casa da jornalista Caroline Ribeiro, de 34 anos, o fechamento das escolas representou um enorme desafio. A filha dela, Lorena, tem 4 anos, e estuda numa instituição particular em Dourados. Desde que os encontros foram suspensos, as atividades têm sido realizadas à distância através da internet. A interatividade com os professores via plataformas digitais não tem sido suficientes e exigiu da douradense e do esposo ainda mais participação na vida escolar da pequena. 

“A Lorena está em fase de aprendizagem e talvez se eu não der o meu melhor, isso a prejudique. Então incorporo a “tia Carol” e vamos lá”, disse relacionando o desafio ter que se tornar ‘professora auxiliar’ da noite para o dia. Claro que esta é uma ilustração para a atividade, mas em tempo de suspensão das aulas, obrigou os pais a se reinventarem na forma de apoiar os filhos. 

Caroline e o esposo estão sentindo na pele e ainda não sabem como irão proceder nos próximos meses. Eles aguardam as atualizações das organizações de saúde. A mãe ressalta que mesmo com a possibilidade de retorno em breve, ainda teme a exposição da filha ao novo coronavírus. 

“É um exercício de paciência diário, porque eu tenho que entender que ela tem 4 anos. Mas ao mesmo tempo tenho que ter disciplina, afinal ela tem reconhecer que aquele momento é hora da aula. Mas eu percebo que ela sente falta da rotina escolar. Dos amigos, da professora, porque quando a tia aparece no vídeo, ela fala q tá com saudade, fica com os olhinhos vidrados”, relatou.

Quem também viu a rotina dentro de casa virar de ‘cabeça para o ar’ foi a douradense Jamilyê De Pieri. Mãe de dois meninos, de 7 e 11 anos, ela tem se desdobrado para ajudar o mais velho com as atividades escolares. Ele estuda em uma unidade pública do Estado, está no sexto ano, mas segundo a mãe, tem tido um déficit de aprendizagem enorme com a mudança nos formatos de aula. Jamilyê confessa sentir que o ano escolar do filho está perdido, caso a realidade não mude. 

“Preferia que ele fizesse o sexto ano novamente no ano que vem, com calma, aprendendo. Já estamos passando por tantos desafios. Para as crianças existe uma dificuldade imensa em não poder sair, não poder brincar com os amigos e etc, e mais isso. Sem contar as provas”, afirma. 

Ela relata alguns desafios no apoio ao filho, sendo os principais a dificuldade de associar o ambiente de casa como a ‘nova sala de aula’, a dificuldade para gerenciar o tempo em função do filho (Jamilyê é viúva, cuida dos filhos sozinha e precisa trabalhar para sustentar a família), sem falar no esforço dos professores, que segundo ela estão fazendo o possível, mesmo que isso seja pouco eficiente. 

“Já meu outro, que estuda no Município, esse seria o ano em que ele aprenderia a ler. Mas o município decidiu não enviar atividades, pois muitos alunos não têm acesso a internet. Achei sábia a decisão”, comentou sobre o filho mais novo.

Na rede municipal as crianças estão sem qualquer cronograma escolar adaptado desde que as aulas foram suspensas, em março.

Milena Brum é mãe de uma menina de 6 anos. Nos últimos meses precisou adaptar a vida para cuidar da mãe, que está acamada. Esse é um esforço que ela garante assumir com prazer, mas a chegada da pandemia trouxe uma responsabilidade ainda maior: gerenciar a rotina escolar da filha. A menina ainda está em fase de aprendizagem, ainda não sabe ler com precisão, e precisa do suporte familiar para suprir as necessidades que o distanciamento provocou. 

“Olha, agora de uma semana pra cá que a escola adaptou o formato das aulas e passou a ter aulas onlines, mas até então eles mandavam as atividades no Google Classroom e as crianças tinham que resolver na apostila, tirar foto e enviar novamente. Minha filha mal aprendeu a ler, então quem tinha que praticamente resolver as atividades era eu. Ela é uma criança de 6 anos, que está aprendendo a ler agora, não sabe mexer com tecnologia ainda. Na minha opinião aulas online só funcionam com as crianças maiores, eles deviam se adaptar a outro método para as crianças pequenas”, afirmou.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS?

Para a educadora Maísa Barbosa da Silva Cordeiro, as transformações na forma de educar não devem ser tão expressiva após a pandemia do novo coronavírus. “Pelo menos no Brasil”, considera.

Maísa não vê na educação à distância uma possibilidade no País. Ela considera a falta de acesso à internet como o principal fator. Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta semana, 45,9 milhões de brasileiros ainda não tinham acesso à internet em 2018. Este número corresponde a 25,3% da população com 10 anos ou mais de idade.

Essa falta de democratização da internet precisa ser considerada na hora de avaliar a eficácia do estudo remoto. 

“Aulas remotas, para a educação básica, só são válidas neste momento de crise”, considera. 

Confira a entrevista concedida ao O PROGRESSO.

O PROGRESSO: Quais devem ser as transformações na forma de educar, a partir do pós-pandemia, dentro das escolas? 

Maísa: Olha, para o pós-pandemia, sinceramente não há como prever. Não acredito que haverá grandes transformações no modo de se ensinar, pelo menos por aqui.

O.P: Você acha que o ensino a distância é algo que deve ser implementado de forma mais colaborativa quando tudo isso passar? Qual sua avaliação sobre o método dentro do ensino básico?

Maísa: Não acho uma opção, nem parcialmente, para o ensino básico, em especial, o público. A escola é mais que um espaço de ensino e de aprendizagem, é local de socialização. Privar a criança ou o adolescente disso é prejudicá-lo em sua sociabilidade, o desenvolvimento de sua percepção ética em situações que só são possíveis no contato diário com colegas e professores. Tirando as dificuldades financeiras, as diferenças sociais, o fato de não termos democratização de internet, de condições de acesso a computadores. 

O.P: Mas descartar essa possibilidade não seria negar uma realidade cada vez mais inserida no ambiente social? Por exemplo, se isso tornar o ensino mais dinâmico, acessível e barato, não poderia ser uma alternativa a ser implementada, nem que seja parcialmente?

Maísa: Eu acredito que é possível dinamizar o ensino, inserir o aluno em uma realidade virtual, ensiná-lo a usar computadores e a tecnologia. Tudo isso dentro da escola. O foco em qualquer ação de políticas públicas não deve ser o de baratear o ensino. Isso é extremamente problemático. Ainda mais dentro de um governo que já sucateia a educação. Baratear mais só se prof der aula de graça

O.P: Você acredita que essa crise também serviu para que os pais compreendam o papel da escola e passem a valorizar ainda mais a educação? Desde as instituições aos professores?

Maísa: Olha, a construção da ideia do professor e da escola como ambientes prejudiciais e/ou ruins para crianças e adolescentes é antiga e vinculada a uma ideia de poder e de dominação que precisa negar um saber institucionalizado. Desde a desvalorização da ciência. Agora, por exemplo, vivemos em um ambiente de crescimentos de movimento anti científicos, seja o movimento do terra planismo, os movimentos antivacinas. Há todo um movimento de negação do saber científico. Começou com as ciências humanas, com a desvalorização de áreas como a filosofia, sociologia, entre outros. Agora, está em seu grau mais absurdo, como, por exemplo, do presidente indicando remédio. E um remédio que não está aprovado pelos médicos. Há então a negação do saber científico de toda a medicina. É necessário mais do que uma pandemia para que esses pais, que desvalorizam o professor, a escola e o saber científico, mudem. É preciso um resgate de valorização do saber científico, o planejamento de uma participação dos pais de modo mais efetivo na escola, entre outras ações. Escola é lugar de assimilação de conhecimentos científicos, técnicos, mas também  éticos e o desenvolvimento de percepção crítica acerca dos microcosmos e dos macrocosmos.

O.P: Sentir na pele o desafio de apoiar os filhos na educação vai sensibilizar os pais para essa importância, tantas vezes ignorada?

Maísa: Quem valoriza a educação valoriza em qualquer cenário. Quem desvaloriza, desvaloriza em qualquer cenário. Quem perde, nesse processo, são os educandos. Mas não creio que as aulas remotas são suficientes para inverter uma desvalorização histórica da figura dos professores por parte de uma parcela de brasileiros. 

O.P: Por fim, o que esperar da educação nesses dias? Como as nossas crianças sofrerão com essas mudanças? O momento é de compreender, reinventar, parar e esperar... o que fazer?

Maísa: O momento é de nos adequarmos a uma situação que, espera-se, é temporária. As aulas remotas são válidas e importantes nesse momento, mas também deve ser tempo para compreender que tanto tecnologicamente não estamos preparados, tendo em vista que há uma parcela significativa de brasileiros sem internet, sem computadores e sem conhecimento de manipular ferramentas virtuais de ensino. Igualmente, professores não estavam habituados com as aulas remotas, e estão aprendendo na prática algo completamente diferente do que estão acostumados. Aulas remotas, para a educação básica, só são válidas neste momento de crise. Creio que seja importante interrogar como as crianças já estão sofrendo: isolamento, falta dos colegas e professores, necessidade de aprender em um ambiente ao qual não estão acostumadas, dificuldades financeiras de acesso. Para mim, o momento é de adequações ao momento em que estamos, e, também, um momento de compreensão das crianças, dos professores e dos pais e responsáveis, pois estão todos e todas imersos em um cenário absolutamente diferente.

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