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Opinião

Zika Vírus: vergonha e união nacional

26 Jan 2016 - 11h18
Eduardo Marcondes


Nos noticiários, nos congressos médicos e científicos, nos órgãos responsáveis pela saúde pública em todos os níveis (Ministério da Saúde e secretarias estaduais e municipais de Saúde) e sobretudo nos corações e mentes das mães a microcefalia tem dominado o debate, vez que por ser uma doença nova no Brasil suas manifestações não são todas conhecidas.Nesse contexto, a preocupação da população, especialmente das gestantes, é extremamente pertinente. As instituições os profissionais de saúde, notadamente os pediatras, devem a meu ver intensificar as orientações sobre os cuidados do pré-natal, as devidas proteções (uso de repelentes e medidas gerais domiciliares que evitem a proliferação do vetor transmissor da doença, que é o Aedes Aegypt)) e alertar para os sintomas relacionados à infecção aguda, tais como febre, prostração, rash cutâneo, cefaleia, entre outros. Devemos lembrar que em muitos casos a paciente pode apresentar-se sem sintomas ou oligossintomática e, sendo assim, não procurar nenhum atendimento, o que não necessariamente signifique que o feto em desenvolvimento não possa estar acometido.
  

Do ponto de vista da pediatria, penso que o grande desafio diante desta realidade concreta de incidência crescente da microcefalia é nos prepararmos para atender esses novos pacientes. A microcefalia é um diagnóstico visível, mensurável. Mas não temos como afirmar, por exemplo, que, quanto mais acentuada for a microcefalia, maior o dano cerebral. Talvez microcefalias discretas possam estar associadas a danos cognitivos graves. Não há como fazer estas afirmações. O que posso dizer é que este é um problema gravíssimo, pois as alterações de desenvolvimento neuropsicomotor podem levar anos para serem percebidas. Algumas são sutis. E algumas infelizmente podem ser confundidas com déficits de aprendizado relacionados à carência do meio em que se vive.


É extrema importante a notificação de todos os casos suspeitos, contactando a vigilância epidemiológica local, sobretudo em mulheres em idade fértil e gestantes. O mais importante agora é o combate ininterrupto e incansável ao mosquito vetor, o Aedes, o que já deveria ter sido feito há muito tempo. A grande dificuldade é que tanto a dengue quanto a infecção por Chikungunya também apresentam sintomas semelhantes à infecção aguda por zika vírus, embora ao que tudo indica este último tem se destacado pelas manifestações neurológicas. Neste momento devemos pecar pelo excesso, não pela falta. Infelizmente temos que admitir que, mesmo diante do número explosivo de casos de dengue neste ano, foi preciso acontecer algo mais dramático agora para que a sociedade e os gestores despertassem.


O Brasil vive hoje um grave problema de saúde, de proporções imprevisíveis. Primeiro que não há prova definitiva de que seja o zika vírus o único responsável por todos estes casos de microcefalia que estão surgindo. É imprescindível que uma investigação epidemiológica abrangente e imparcial seja feita, independente da força da associação dos eventos, de forma a avaliar outros fatores, ambientais, nutricionais e epidemiológicos, que possam estar implicados ao problema. Segundo que a microcefalia pode ser a ponta de um iceberg. Como disse, ela é mensurável. Mas não há como garantir que não se detectarão outras alterações ou atrasos de desenvolvimento neuropsicomotor tardio em crianças em áreas acometidas, bem como não sabemos como estas crianças serão para tal avaliadas ao longo do tempo. Por fim, este é um motivo de vergonha e de união ao mesmo tempo. Vergonha porque o combate ao Aedes foi negligenciado, menosprezando o potencial do mosquito de transmitir outras doenças, como se a dengue já não o bastasse. E de união, porque agora, diante da gravidade imposta, não adianta trocar acusações improdutivas. É preciso que todas as entidades de classe relacionadas aos danos (infectologia, ginecologia e obstetrícia, pediatria, neurologia), juntamente com as instituições governamentais ligadas a saúde, ao meio ambiente e às cidades, se unam para combater esta mazela. Se não acabarmos com os criames de mosquito pelo país, tudo virará letra morta.  


Médico pediatra

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