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Opinião

Pilatos, Cristo e a Verdade!

22 Jan 2016 - 11h26
Antonio Carlos Siufi Hindo


Desde o momento em que o pecado entrou no mundo e impregnou as entranhas do ser humano machucando os seus sentimentos, alterando suas emoções, despertando todos os instintos nocivos ao bom convívio social, a humanidade nunca mais teve o equilíbrio necessário para experimentar por completo a alegria de uma vida saudável.


Na história da criação os relatos trazidos não mostravam esse enredo. O homem foi criado para viver intensamente a vida que seria toda ela coberta de alegria e de bem estar. Todavia a esperteza do ser humano pretendendo aspirações maiores conspirou em seu próprio desfavor. E a resposta foi dura. Plantou-se no coração do homem a inveja, a desconfiança, o ciúme, a cobiça, a traição, a ganância, e todas as formas que fazem a vida se transformar em sofrimento, dor e martírio.


A vida do Cristo desde o seu nascimento até o estertor da sua morte é o exemplo mais claro desse entendimento dogmático. Quando Ele veio ao mundo em carne e osso cumprindo a profecia de Isaias os seus irmãos não acreditavam na sua presença física e do que seria capaz de realizar. E questionavam: É esse, então, o Cristo, o filho do Carpinteiro? Em razão dessas desconfianças, não pode realizar os milagres na sua cidade natal. Aqui está configurado o protótipo das maledicências. Não sabemos precisar quando isso efetivamente ocorreu. Seu registro é uma interpretação de cunho eminentemente subjetivo.


Mas, o diálogo entre Pilatos e o próprio Cristo antes do final do julgamento histórico mostrou um tema interessantíssimo e que preocupa até os dias de hoje a humanidade. O que é a verdade? Foi a pergunta que Pilatos fez ao Cristo e que ficou no ar a resposta, para nós humanos. Nenhuma bíblia dá prosseguimento à resposta da pergunta formulada. O Cristo falou sobre o tema mas no campo espiritual. Esse tema tem reflexo direto nos ordenamentos jurídicos das nações civilizadas. Nesse contexto não existe no âmbito dos julgamentos na área criminal para a análise da prova o principio da certeza legal porque, não há provas infalíveis, nem qualquer delas pode ser imposta como definitiva. A verdade então se transforma em enigma. Em razão dessa circunstancia para exarar a sentença o juiz forma sua opinião apreciando-as livremente.


O processo judicial que julga os crimes cometidos, por empresas e políticos, envolvidos na operação Lava Jato aponta para essa direção sempre tormentosa para os julgadores. Todos os envolvidos em atos de corrupção têm suas defesas e procuram demonstrá-la de uma forma mórbida, e jurando inocência. Até diante de provas documentais, que não resistem em princípio a um arremedo de defesa a imaginação humana aliada à criatividade sem limite que abunda no espírito das pessoas apontam para ações e cometimentos que deixam desnudada a ousadia de seus autores. E agem dessa forma para se esquivarem de suas responsabilidades criminais. Mas os fatos apurados precisam ser investigados e os seus autores processados e julgados. É isso que o Estado-Juiz nas democracias prometeu ao seu cidadãot odas as vezes que bater a porta da Justiça para a solução dos seus problemas. Aqui reside a grandeza da democracia.


A independência dos seus juízes para os julgamentos dos casos que são submetidos à sua apreciação constituem a segurança necessária para o bom julgamento que a sociedade aguarda.


E o bom julgamento é aquele em que a sua fundamentação consegue serenar o espírito de contenda dos seus protagonistas dizendo com todas as letras com quem está o melhor direito. Sentença que não é fundamentada o suficiente para despertar nos litigantes a paz interior que tanto precisam para serenar seus espíritos, pode ser tudo, menos sentença. E isso, ninguém quer e não deseja.


Promotor de Justiça aposentado

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