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Opinião

Francisco, o aborto e o perdão!

08 Jan 2016 - 11h15
Antonio Carlos Siufi Hindo


As últimas declarações do pontífice máximo da Igreja Católica concedendo aos padres o poder de perdoar as mulheres e médicos que já praticaram o aborto e que manifestarem em concreto o seu pedido de perdão ao longo do ano do jubileu, aborreceu a parte mais retrógrada da Igreja de Cristo. Algo incompreensível diante de uma realidade gritante que está fortemente evidenciada na certeza absoluta, que somente à mulher e ninguém mais compete a decisão que requer um esforço gigantesco para tal prática. Ela é a dona e senhora do seu próprio corpo. As conseqüências advindas da ação alcança somente a ela, e com ninguém mais poderá dividir tamanha responsabilidade.


A opinião exarada por Francisco, deve ser interpretada na sua expressão literal, não cabendo ao exegeta qualquer outro tipo de cometimento, senão, aquele que indica para o perdão. É que a singeleza da mensagem e o seu alcance espiritual não podem oferecer espaço para discussões estéreis, que em nada produzirão um efeito positivo.


O aborto sempre existiu e se constituiu em algo tormentoso para a vida da mulher, pela sua própria essência. E exigiu dos profissionais que tratam da mente humana um trabalho heroico, para melhor aceitar esse ato excepcional. Só quem sente essa dor, pode melhor defini-la.


Poucos, dentro e fora da Igreja tiveram a sensibilidade de melhor entender a ocorrência desse fato registrado de uma forma indelével por quem teve que protagonizá-lo. Nem mesmo o Cristo que deu à mulher a dignidade de ser tratada como ser humano, e não como mera propriedade de terceiros, conseguiu o avanço necessário para serenar os ânimos dos homens, de então. É assim, que precisamos entender o aborto e o seu perdão no restrito campo da ação espiritual.


Não é possível entendermos de forma diferente o tema, porque nenhuma mulher em sã consciência conseguirá praticar um ato de verdadeiro desamor, pondo fim à um ser nascido de suas entranhas, sem que algo de muito grave a tenha empurrado para esse desiderato.


Aqui, não está a se tratar de um ato criminoso ou de uma ação nefasta que pode colocar em desequilíbrio as relações que as pessoas precisam cultivar para uma boa convivência social. Com esse posicionamento, o Papa está apenas e tão somente oferecendo o perdão espiritual àquelas mulheres que num ato de verdadeiro desespero emocional e psíquico não conseguiram suportar a dor e o peso de carregar o fardo consequente a um ato impensado, imposto ou inoportuno. Nesse diapasão o perdão oferecido precisa sempre ser interpretado como um ato de elegância entre os seres humanos diante das suas fraquezas que somente os desígnios de Deus podem melhor interpretar. É ele que nos dá a sustentação fática e a certeza de que a humanidade não poderá nunca se embrutecer, endurecer o seu coração, machucar seus sentimentos por não ser grande o suficiente para perdoar o seu semelhante.


O perdão oferecido pelo Cristo à mulher adúltera que estava prestes a ser morta por uma sociedade hipócrita e de visão obscurecida é o mais forte indicativo a sustentar a grandeza da ação de Francisco. A Igreja como qualquer outra instituição precisa sempre se atualizar, modernizar, acompanhar os reclamos do seu rebanho, sob pena de se encolher, enfraquecer e deixar de cumprir o seu verdadeiro papel de conselheira e orientadora para todos os que precisarem de uma palavra de fé, esperança e força para vencer os desafios, que todos os dias precisamos enfrentar. Francisco está fazendo esse alerta. Está indicando um rumo seguro a ser seguido.


Essas mulheres não podem viver uma vida indigna, maldita. Precisam ser aceitas da mesma forma como anteriormente o Papa se posicionou em relação aos divorciados que numa decisão heroica reconstruíram suas vidas e continuaram fazendo parte da Igreja de Cristo, sem nenhum obstáculo.

Promotor de Justiça aposentado. e-mail: [email protected]

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