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Wilson Valentim Biasotto

Direita volver... esquerda volver...

19 Mar 2016 - 06h00Por Do Progresso
Volver é verbo derivativo do Latim volvere, que significa mudar de posição, mover-se de um lado para outro. O termo é usado quase que exclusivamente pelas forças militares em exercícios de ordem unida, mas vamos adaptá-lo nessa crônica para a esfera política. Isso porque muitos internautas me perguntam o significado de Direita e Esquerda então, volver para que lado?


Durante a Idade Média a sociedade Ocidental estava dividida em três Ordens, a dos que lutavam e governavam (a nobreza), a dos que rezavam (o clero) e a dos que trabalhavam (os servos da gleba, em maioria). Com o renascimento do comércio e das cidades, após o ano 1000, essa configuração da sociedade foi se modificando, especialmente com o surgimento dos comerciantes, chamados burgueses porque viviam nos burgos (cidades medievais). Em 1789, quando se deu a Revolução Francesa essa burguesia contribuiu para o fortalecimento do poder real, em contraposição ao poder da nobreza que dividia e enfraquecia o poder do rei. Pela sua força essa burguesia nascente foi incluída nos Estados Gerais (salão da Assembleia Nacional), juntamente com artesãos, banqueiros e médicos. Tínhamos então três forças, Clero e Nobreza, que se sentavam à direita do rei e a burguesia, denominada terceiro estado, que se sentava à esquerda do rei. Daí a origem política das expressões Direita e Esquerda.


A Direita (clero e nobreza) era um grupo conservador (dos seus privilégios), a Esquerda (o terceiro estado) era a única que estava obrigada a pagar impostos e fazia oposição à nobreza e clero, beneficiários de privilégios.
Com a evolução da democracia a Esquerda passou a ser identificada como aquela que defende a intervenção do estado na economia e na vida social e, principalmente, defende o ideal igualitário. A Direita é identificada por defender a liberdade de mercado (a não intervenção do estado na economia) e direitos individuais.


Na aparência a Direita é progressista porque é Liberal, no entanto ao defender a não intervenção do estado na economia, ela favorece apenas os detentores do capital e, ao defender direitos individuais, estimula a meritocracia, ou seja, nas sociedades geridas pela Direita somente vence quem tiver méritos. Tio Patinhas, por exemplo, teve o mérito de ter um talismã, sua primeira moeda. Gastão, seu sobrinho o mérito de ter um pé de coelho que lhe dá sorte (Vide José de Souza Martins : "Sobre o modo capitalista de pensar).


Já a esquerda, aparentemente, engessa o Estado, mas, no entanto, sua ideologia prega um Estado forte para que possa agir como harmonizador social, para que distribua com igualdade e justiça as riquezas produzidas pela classe trabalhadora.


É legitimo que Direita e Esquerda disputem o poder pelo voto, mas a Direita parece não se conformar com derrotas sucessivas. E vejam que ter o governo não significa exatamente ter o poder. A Esquerda elegeu vários governos na América, mas não obteve o poder, porque existe uma microfísica do poder (Foucaut), uma divisão do poder entre grupos e instituições. Em especial, desejo lembrar o poder da Mídia, engajada majoritariamente à Direita e financiada pelo empresariado. Imagine o leitor se uma emissora de televisão defenderia os interesses dos trabalhadores, sendo que as marcas mais famosas investem bilhões em propaganda. Ora, ao contrário de defender trabalhadores, a Mídia põe-se a serviço da Direita, escamoteando a exploração do homem pelo homem e fazendo com que o povo se conforme com o que tem. Mais que isso, mistifica a classe média que, embora não seja a classe capitalista, tem na cabeça o modo capitalista de pensar.


Espero ter respondido aos inúmeros pedidos que recebo para explicar a diferença entre Direita e Esquerda. E então, Direita ou Esquerda volver?


Fico com a Esquerda, uma Esquerda democrática, solidária e que busque a fraternidade entre nossa gente. Fico com a esquerda especialmente nesse momento em que a Direita brasileira, usando recursos condenáveis e mistificando nosso povo, tenta sepultar a democracia em nosso país. Não defendo a meritocracia, penso que devemos distribuir a riqueza da nação entre todos e que mesmo os incapazes de produzir algo, possam ter uma vida digna, graças ao trabalho daqueles que são capazes de produzir com a sua força e inteligência.


Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: [email protected]

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