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Wilson Valentim Biasotto

Desdobramentos do afastamento de Cunha

18 Mai 2016 - 06h00
O STJ afastou Eduardo Cunha da Câmara e, por via de consequência, da presidência do Legislativo. Mas por quê? E o que virá posteriormente?


Eduardo Cunha tornou-se o maior gangster que já passou pela presidência da Câmara. Significa dizer que o Supremo agiu como caudatário, somente o afastou quando já não havia a mínima condição de aturá-lo. Cínico, hipócrita, obstrutor da Justiça e também dos trabalhos legislativos, comandante de um exército mercenário de deputados capazes de se exporem ao ridículo para apoiá-lo em suas tresloucadas atitudes, por pura vingança promoveu a abertura de um processo de impeachment que paralisou o país, sem que houvesse qualquer imputação de crime de responsabilidade.


Na admissibilidade do processo instaurado, o exército mercenário, os deputados cunhistas, falaram de tudo, mas sempre à margem, nunca atacando diretamente os dois pontos chaves, ou seja, a assinatura pela presidente de seis decretos (na verdade quatro) que teriam implicações em mudanças orçamentárias e as famosas pedaladas fiscais.


Cunha está fora, mas o seu exército continua na ativa. Resta saber se os soldos continuarão a ser pagos ou se os mercenários se sublevarão, resultando em deserção ou em luta acirrada para a ocupação do espaço do traficante fora de cena?


O afastamento de Cunha acalmará a voz das ruas? Ou, ao contrário, tombado o mais ignóbil inimigo do próprio povo, o fortalecimento das manifestações se tornarão mais intensas? Se tornarem-se mais incisivas, essas manifestações terão alguma influência sobre os senadores, também, em boa parte, submissos a Cunha?
São muitas as indagações, poucas as certezas. O senador Delcídio foi preso a mando do Supremo por uma suposta obstrução da Justiça. E Cunha, muito mais implicado, apenas afastado? Terá o Supremo deixado a sua prisão a cargo do juiz Moro?


Se Cunha não perder o foro privilegiado, a presidente Dilma, afastada, também não perderá o seu. Ora, se Dilma não perder o foro privilegiado, continuaria presidente, portanto o vice Temer, assumiria a presidência sem, entretanto, ter poder para nomear um novo ministério.


Sobre esse imbróglio cabem muitas reflexões. Tendo sido afastado do comando da Câmara de Deputados, estaria o Supremo atribuindo-lhe aprioristicamente culpabilidade? Tudo indica que sim, no entanto algumas das instituições brasileiras, não obstante estarem sendo defendidas pela mídia golpista, não estão valendo um traque. Logo, a dedução é de que não se pode duvidar de nada, inclusive, baseando-nos na entrevista coletiva que Cunha concedeu ao final de seu julgamento, pode-se dizer que riu do Supremo ao perguntar porque esperou seis meses para o afastar, atacou a presidente Dilma e deu a entender que continuará agindo, ou seja Temer e sua turma não se livrará dele. Ora, agir nas sombras é o que Cunha melhor sabe fazer. O medo e a subserviência do seu exército mercenário poderão fazer com que a sua tropa de choque continue maltratando o Brasil e os brasileiros.


Por outro lado, não podemos nos esquecer de que o ministro Teori Zavaschi, disse textualmente que "Cunha atua com desvio de finalidade para ‘promover interesses espúrios’ e que sua permanência no comando da Câmara causa constrangimento cívico".


Poderíamos incluir no seio desse "desvio de finalidade" a abertura do processo de impeachment? E dentre os interesses espúrios não estaria a tomada de poder pelo seu grupo, provocando uma mudança radical na política econômica, transformando o que hoje podemos chamar de estado de bem-estar social, em neoliberalismo? E, nesse caso, Temer ascenderia à presidência, como mero boneco num circo de marionetes?


É sobejamente sabido que o PMDB, não obstante ser um partido de Direita, sempre foi, desde a sua origem no MDB, um partido nacionalista. Temer ao submeter-se à Cunha, ao DEM e ao PSDB, conseguiria implantar uma agenda neoliberal, com arrocho salarial, encolhimento do estado, privatizações e, principalmente, atrelar-se aos Estados Unidos, arrebentando com o Banco dos BRICS, por exemplo?


O vagalhão neoliberal avança pelo mundo, mas Teori poderá concluir o seu trabalho acolhendo virtual pedido de cancelamento do processo de impeachment, já que foi instaurado por um sociopata, deixando o Brasil caminhar com mais igualdade social.


Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: [email protected]

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