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Opinião

Cristina Mussury: 19 de abril – O anúncio da desesperança

27 Abr 2011 - 11h32
Vamos imaginar que a cada ano que comemorássemos o nosso dia só viessem lembranças de miséria e desrespeito, e se olhássemos para o futuro não víssemos uma luz brilhando no horizonte, apontando um caminho melhor. Seria desesperador, a morte em vida.


No último dia 19 a mídia local divulgou o caso de um jovem de 17 anos criado na Aldeia Bororó em Dourados, mais uma vítima das drogas e um trágico caso onde a desesperança torna refém um rapaz e toda sua família. Se não bastasse a vida infeliz do moço, ainda tem o trauma dos irmãos em ter visto o bruto assassinato da mãe. Hoje moram com o pai em um casebre aparentemente de um cômodo e deixaram a casa de alvenaria a cem metros dali com o irmão que na maior parte dos dias, quando não medicado, permanece agressivo e delirante. O mais incrível é tomar conhecimento que a situação foi revelada há dois anos atrás, o rapaz à época vivia em um buraco, sendo cuidado pela falecida mãe.


Numa alusão a data, o jornalista Frederico Vasconcelos da Folha de São Paulo cita o artigo de autoria de Reginaldo Trindade, Procurador da República, responsável no Estado de Rondônia pela defesa do Povo Indígena Cinta Larga que descreve a penúria que vive os nossos irmãos, na área citada.


Relata o preconceito contra as comunidades indígenas no País e o descaso a que estão relegadas estas populações pelo Governo Federal, notadamente por seu braço indigenista, a Fundação Nacional do Índio - Funai.


A exploração ostensiva em Rondônia já ultrapassou uma década e não há qualquer horizonte à vista quanto a seu término, muito menos quanto à sua regularização.


Num paralelo, temos a Reserva Indígena de Dourados, “criada” em 1917, só regularizada em 1965, área de 3.600 hectares, com composição oriunda de três etnias: Caiuás, Guarani e Terena, com densidade demográfica de 0.3 hectares/pessoa, sendo considerada por especialistas como um confinamento humano, por ser impossível a reprodução da vida social, econômica e cultural, território da exploração, da miséria, do desemprego, dos vícios, da prostituição e tudo mais.


O Procurador salienta que a Funai jamais conseguiu se desincumbir, com um mínimo de organização, de suas relevantes responsabilidades. A descontinuidade administrativa decorrente da constante alteração das pessoas encarregadas de lidar com a questão, a ausência de estratégias adequadas, a escassez de recursos e suporte técnico-administrativo são apenas algumas das mazelas que podem ser citadas.


Para alterar esse estado de penúria é necessário e urgente que os poderes constituídos se unam e forme uma força tarefa, uma verdadeira missão de paz, com objetivo de educar crianças, adolescentes e seus familiares, ampliando-lhes oportunidades de socialização, profissionalização e cidadania. Despertá-los para suas potencialidades humanas com direitos e deveres, ajudando na construção de personalidades e formação de conceitos, desenvolvendo suas aptidões e contribuindo para a sua inserção na sociedade, no mercado de trabalho com geração de emprego, renda e melhores condições de vida. Resgatar a Reserva Indígena, possibilitando uma vida digna em que todos possam de fato vislumbrar um horizonte com brilho próprio.



A autora é servidora pública municipal, professora, bacharel em Comunicação Social habilitada em Relações Públicas e pós-graduada em Gestão de Recursos Humanos.

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