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Davi Roballo

Certo mau cheiro

28 Jun 2016 - 06h00
Pela primeira vez Maria Fernanda entrou em um ônibus urbano e sem cuidados quase quebra o salto de seu sapato em um dos degraus na porta de entrada. Muito bem vestida e maquiada impecavelmente sem exageros, de forma excepcional rumava para seu trabalho, levava consigo sua inseparável bolsa e uma bem acabada sacola de boutique.


Não estava acreditando que tivera de pegar um ônibus por seu carro não ter dado a partida, simplesmente porque descarregou a bateria ao amanhecer com os faróis ligados, pois ela se esqueceu de desligar na noite anterior. Pensava logo consigo: estou estressada, ando trabalhando demais e para piorar minha diarista não aparece há três dias, pois está resfriada. Tinha de acontecer tudo ao mesmo tempo. Que sorte a minha...


Quando se acomodou em um assento sentiu logo um mau cheiro, especificamente um cheiro de excremento humano. Sua primeira reação foi olhar ao redor e tentar encontrar a origem do odor incômodo e ao realizar isso, percebeu que as demais pessoas também estavam incomodadas, algumas examinando as solas dos calçados e outras cheirando as mãos.


De todas as pessoas que examinou com os olhos para tentar encontrar o motivo de tanto cheiro ruim, desconfiou de um idoso sentado logo a sua frente e de uma mãe que sentada amamentava seu filho.


Olhando aquele senhor surrado pela gravidade e pelas intempéries do tempo, logo imaginou que fosse ele, pois como médica lembrou-se das eventuais incontinências urinárias e desarranjos intestinais que podem ocorrer nesse período da vida. Sua outra hipótese foi o bebê ter enchido as fraldas e sua mãe não ter percebido, mas depois que viu o bebê ser examinado pela mãe e ver que tudo estava em ordem, voltou a acusar silenciosamente o idoso, ao mesmo tempo em que desejava chegar logo a seu destino.


Por outro lado o idoso logo percebeu que o cheiro provinha de alguém que estivesse bem perto dele e essa pessoa poderia ser Maria Fernanda, mas quando a examinou com os olhos e viu uma balzaquiana bem vestida, com uma bolsa elegante e uma sacola de uma boutique famosa, logo se convenceu ser impossível e então desconfiou também da mãe e da criança.


Quando Maria Fernanda desembarcou o cheiro sumiu do interior do ônibus, mas ninguém percebeu. Andando em direção ao hospital sentiu que o cheiro estava a persegui-la, então examinou seus calçados e sua roupa, suas mãos e convenceu-se de que aquele mau cheiro havia tomado aquela cidade, como infesta localidades que possuem curtumes próximos a área urbana. Convencida disso rumou apressadamente a seu local de trabalho.


Quando chegou ao hospital, o mau cheiro também estava lhe acompanhando, por onde ela andava o mau cheiro a perseguia. Ao chegar a seu consultório colocou a sacola em cima de sua mesa e ao abri-la para pegar seu jaleco percebeu ali um pequeno saco de papel higiênico usado, que devido à ausência da diarista, ela própria havia recolhido do cesto no banheiro para posteriormente descartar na lixeira. Corou e ficou imóvel por um tempo tentando lembrar onde estava com a cabeça ao colocar um saco de papel higiênico usado na sacola de seu jaleco.


No silêncio de seu consultório envergonhou-se ao lembrar que mesmo sem abrir a boca acusou indevidamente um idoso e uma mãe que amamentava seu filho pelo mau cheiro, que na verdade ela estava conduzindo em sua sacola.


A diarista de Maria Fernanda voltou em poucos dias e à vida voltou ao normal, mas Maria Fernanda não é mais a mesma, não julga mais o outro, sem examinar, primeiramente a si mesma.


Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: [email protected]

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