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Jorge Luiz Baldasso

Burocracia assassina

10 Mar 2016 - 08h53
Jorge Luiz Baldasso



Há poucos dias, tornou­-se público o apelo que o burocrata nazista Adolf Eichmann, condenado por genocídio, fizera ao premiê israelense para que este lhe comutasse a sentença de morte.


Eichmann se considerava inocente e, de fato, nunca matara ninguém diretamente. É possível até que jamais tivesse empunhado uma arma. Sua tarefa consistia em organizar listas de deportados, inclusive idosos, gestantes e crianças, quase todos judeus, e encaminhá­-los aos campos de extermínio. Como muitos de seus pares não parava para refletir sobre o que estava fazendo; queria apenas cumprir bem sua tarefa, como um bom subordinado. O fato de 250 mil inocentes terem perdido a vida em razão de seu zelo, sua submissão à papelada, eventualmente o incomodavam, mas a burocracia era mais importante... as leis nazistas vinham em primeiro lugar, em detrimento de quaisquer considerações sobre humanidade e compaixão.


A Alemanha nazista é evidente, não detém o monopólio sobre os meios eficientes de matar sem provocar sentimentos de culpa ou remorso em seus carrascos. Guardadas as devidas proporções, precisamos reconhecer: através dos mais dissimulados ardis – e nesse ponto somos bastante criativos ­- aqui também se mata!


A saúde pública do país ilustra bem esta situação macabra. Não é novidade, vemos todos os dias nos noticiários a rotina e o drama de milhares de cidadãos peregrinando nas portas de hospitais e postos de saúde sem conseguir atendimento, ou jogados de um lado para outro, feito peteca, em busca de algum tratamento para sua enfermidade. A maioria deles são idosos, gestantes e crianças, quase todos pobres e sem a alternativa de um atendimento minimamente decente. Muitos morrem enquanto aguardam na fila a liberação para a internação, a cirurgia, ou mesmo um simples exame.


A fila! Na saúde pública, ao final de uma quase sempre há outra, o que acrescenta ao drama do infeliz enfermo um esforço contínuo de paciência e conformismo. E o suplício continua com a falta de vacinas e medicamentos para tratamento de doenças graves. As explicações das autoridades são as mais diversas, mas o mais provável é que aconteceu algum problema com a "papelada"... afinal, ninguém faria uma coisa destas de propósito... ou faria?


Mas não é só na área da saúde que acontecem esses absurdos. Em todos os aspectos da vida nacional vemos o dedo de burocratas zelosos se esmerando em criar empecilhos na forma de leis, portarias, ou quaisquer outros entraves que não resolvem problema algum mas protelam, atrapalham e infernizam a vida do cidadão. E por vezes tem efeitos desastrosos. Quando o incêndio na boate Kiss, há dois anos, matou 243 jovens, perguntou-se por que o estabelecimento não tinha portas de emergência, o que teria evitado a tragédia. A explicação mais provável: ao invés de cumprir a lista interminável de exigências para obter o alvará, os proprietários optaram por subornar os fiscais - situação para a qual cabe como uma luva aquele ditame bíblico "filtra-se o mosquito, engole-se o camelo". Deu no que deu!


Isso não muda! É o inferno da burocracia, esta deusa implacável que atenta contra toda a racionalidade e eficiência.


Certa vez, ouvi um neurocirurgião, com especialização em um dos melhores hospitais do país, desabafar sobre as dificuldades que tinha em tratar seus pacientes graves porque o material cirúrgico, importado, ficara retido na alfândega de algum aeroporto; faltava alguma guia ou carimbo, e o burocrata, do outro lado do balcão, alegava "não poder fazer nada". E ainda tinha que ouvir que a culpa não era sua... "é do sistema".


Isso mesmo, ninguém é culpado, é o "sistema" que mata! Sentenças de morte que tem como lastro a burocracia insensível e implacável, associada ao conformismo acomodado de milhões de cidadãos. Parece coisa de nazista!


Eichmann foi enforcado em 31 de maio de 1961. Seus argumentos de que era apenas um cumpridor de ordens não fora aceito pelo tribunal, nem tampouco pelo premiê. Não tiveram compaixão dele, assim como ele não tivera para com milhares de inocentes. Se tornaria um dos raros casos em que um burocrata inconsequente respondera pelo mal que causara.


Com tantos outros fazendo maldades, por que só Eichmann foi enforcado?


Médico. e-mail: j[email protected]

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