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Opinião

As visões da cegueira

15 Jul 2011 - 07h49
Rogério Fernandes Lemes


A dissidência do pensamento humano é simplesmente maravilhosa. Ela impede o perigo do pensa-mento único, determinista e autoritário. No entanto, entre pensar e reproduzir pensamentos há uma enorme distância e interessantes olhares. Interessantes porque eles legitimam ações de controle social. Esses olhares produzem visões e concepções sobre a realidade; realidade esta que está relativizada na sociedade “pós-moderna”. Se tudo é relativo então nada é absoluto e, portanto, o próprio pensamento relativista é autodes-trutivo porque seu ponto de apoio também é relativo.

Desacreditar no debate aberto das questões sociais, cujo propósito seja contemplar e satisfazer a necessidade das pessoas, nada mais é do que manifestar adesão ao pensamento determinista. Deixar de debater questões centrais cuja fundamentação é mais ideológica do que racional, sob o discurso de que o “cidadão está mais preocupado em pagar a conta de luz” é o exemplo mais lamentável de alienação e reprodução de um pensamento etnocêntrico. É fortalecer políticas de criminalização da pobreza.

Tornar a política em espetáculo é enfraquecer, potencialmente, a democracia. Ora, se existe todo um aparato repressivo que se legitima na ignorância e na ausência do debate aberto envolvendo a sociedade, então surge uma pergunta fundamental: qual é o modelo de sociedade que desejamos? Se o indivíduo prefere trocar sua liberdade por segurança, então ele está dizendo que a democracia não é viável. Isto significa estabelecer uma relação de compadrio com o poderoso Leviatã, que promete proteger esse indivíduo de "suas próprias ações", para seu “próprio bem” e, em troca de "segurança" basta apenas que este indivíduo pare de pensar, de tentar decidir sua própria vida e permitir, passivamente, a qualquer momento e em qualquer situação, uma ingerência externa.

Não há perspectiva de mudanças que fortaleçam a liberdade individual quando se aceita uma política de repressão; quando os maiores repressores são nossos próprios pensamentos. A sociedade do medo não pode pensar e quando pensa atores sociais, imersos em visões ideológicas fundamentada na concepção de que pensar livremente é “ilegal”, potencializam e legitimam ações de controle através das armas. O medo é uma forma de se fazer censura!
Aqueles que defendem que debater temas polêmicos na sociedade não passa de falácia, na verdade contribuem para que os representantes políticos não assumam uma posição efetiva sobre as grandes questões que movem a sociedade. Esse tipo de discurso é um dos grandes responsáveis pelo enfraquecimento da de-mocracia.

Um exemplo disso seria o seguinte pensamento: "se a lei pune o estuprador, não sou estuprador, en-tão não falo nada; se a lei pune o traficante, não sou traficante, não falo nada; se a lei pune o viciado em drogas, não sou viciado, não é problema meu não falo nada”. Mas e se a lei punir meus pensamentos e minha opinião, então ninguém poderá falar por mim. Portanto, construir uma opinião sem reflexão crítica e além das coisas óbvias é o mesmo que incentivar o retrocesso da razão.

O Brasil tem demonstrado historicamente que ainda não compreendeu, de fato, a essência da demo-cracia e nem mesmo o que ela representa. Isto é interessante porque o país conheceu os horrores da censura e da privação da liberdade individual, o maior bem de um ser humano. A visão brasileira de democracia ainda é a reprodução de um pensamento democrático. Ainda temos medo de pensar, de manifestar nossas ideias, nossos pensamentos ou exercer nosso ‘direito’ de cidadão e cobrar um posicionamento de nossos represen-tantes parlamentares quanto às questões que possibilitem ao Brasil avançar na distribuição equitativa da riqueza.

Deliberadamente aceitamos todas as ‘verdades’ sem reflexão pelo simples fato de legitimarmos ações assistencialistas, em todos os sentidos: material, emocional, ideológico, espiritual e político. Isto é um fator cultural e histórico no Brasil. Somos tentados a levar todo e qualquer pensamento capaz de produzir novos conhecimentos como inviável’. Quando tocamos nos tabus da sociedade somos hostilizados gratuita-mente, sem reservas.

Cientista Social - twitter.com/rogeriociso

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