Dourados – MS quarta, 23 de setembro de 2020
Dourados
30º max
15º min
Alexandre Sylvio Vieira da Costa

As proporções do impacto no Rio Doce

04 Mai 2016 - 06h00Por Do Progresso
O mar de rejeitos oriundo do rompimento da barragem da Samarco em Mariana, MG que desceu o Rio Doce, destruindo toda forma de vida existente nele, principalmente os peixes, ainda está vivo na memória de todos. A onda de rejeitos eliminou o oxigênio da água, matando os animais aquáticos por asfixia e intoxicou a todos, principalmente com o arsênio, elemento de alta toxidade. A lama atingiu o litoral e comprometeu, também, centenas de quilômetros quadrados de zonas costeiras marinhas na região do Espírito Santo. Agora que estamos entrando no período seco, a quantidade de partículas na água diminuiu, tornando a sua qualidade "menos ruim", mas não podemos nos enganar: a situação ainda é muito grave.


Os primeiros resultados das pesquisas estão surgindo e apresentando um quadro de extrema gravidade. A cadeia biológica, como suspeitávamos, está comprometida devido ao acúmulo de rejeitos no leito do rio e do mar que afetou o fitoplancton e o zooplancton, a base alimentar da vida aquática. Mas outro ponto também assusta: no rio e no mar, os peixes e crustáceos estão com elevados índices de contaminação por metais pesados, principalmente arsênio, além de chumbo e cádmio. Esta bioacumulação que está acontecendo impede que estes peixes possam ser capturados para consumo humano, pois poderiam causar sérios danos à saúde a curto, médio e longo prazo como problemas neurológicos, e indução do nosso organismo ao desenvolvimento de células alteradas, causando a formação de tumores e outras doenças mais graves. Mas, e os rios afluentes do Rio Doce que não foram atingidos? Seria possível pescar e consumir seus peixes de forma tranquila?


Infelizmente não, devido a vários aspectos. Durante a passagem da lama pelo Rio Doce, os peixes estavam subindo o rio para desova, a famosa piracema. Durante este fluxo, alguns peixes foram atingidos pela lama, mas conseguiram escapar para os afluentes, ou seja, estes peixes, mesmo estando em rios afluentes que não foram atingidos pela lama podem estar contaminados.


Devido a melhora da qualidade da água do Rio Doce, muitos peixes voltaram a circular entre os rios por conta da redução da vazão dos rios afluentes, pois estamos iniciando o período seco, aumentando cada vez mais o seu risco de contaminação. Outro aspecto importante antes de liberar qualquer atividade de pesca, seria conhecer a real situação dos peixes em relação à quantidade e as espécies que sobreviveram. Muitas espécies são endêmicas, ou seja, ocorrem somente nesta bacia. A lama foi um impacto extremamente agressivo no meio aquático e a pesca, principalmente de rede, também. Muitas espécies podem realmente entrar em extinção caso mais este impacto aconteça.


E os lagos das barragens que isolaram parte dos rios e que os peixes, certamente não estão contaminados? Podemos considerar estas áreas como berçários naturais. As pesquisas irão demonstrar, mas o repovoamento do rio poderá acontecer com matrizes de peixes retiradas destes locais que não sofreram qualquer tipo de impacto direto da lama da mineração.


É compreensível a posição dos pescadores e a necessidade de retorno ao trabalho, mas cabe à Samarco arcar com seus custos, tanto dos que foram atingidos diretamente pela tragédia, como os pescadores que vivem da pesca nos afluentes que não foram atingidos diretamente. Passaram-se apenas cinco meses da tragédia da barragem, muito cedo para qualquer intervenção exploratória nos rios em relação aos animais aquáticos.



Devemos lembrar que a última piracema foi praticamente destruída com a lama. Além dos estudos que deverão ser realizados, devemos permitir aos peixes pelo menos mais um período de reprodução sem a exploração humana. Para agravar, estamos, apenas no mês de abril, início do período seco, e os rios já estão com as vazões muito baixas, o que facilitaria a captura dos peixes, reduzindo suas chances de sobrevivência. Será que a bacia aguentaria mais este impacto?


Prof. Adjunto - Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri. e-mail: [email protected]

Deixe seu Comentário