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Julio Capilé

Arrependimento

06 Jul 2016 - 06h00
Conforme o estado de espírito, as pessoas dizem ou fazem coisas de que se arrependem. Existem os grandes e os pequenos arrependimentos. Normalmente, a pessoa faz ou diz qualquer coisa e nota que não foi muito feliz e se arrepende. Às vezes, parece coisa sem importância, mas todo tipo de erro é importante.


Se analisarmos os livros ditos sagrados, isto é, a Bíblia, o Novo Testamento, o Corão e todos os livros orientais, encontramos sempre o incentivo ao arrependimento. No Evangelho, encontramos dezessete versículos que fala no arrependimento além do mais forte: "Arrependei-vos porque é chegado o reino dos Céus" carregado de certo grau de dramaticidade e de urgência.


Os Evangelhos foram primitivamente escritos em grego. Com o tempo, pelo fato de o Cristianismo ter-se desenvolvido em Roma, foram feitas traduções para o latim. Como diziam os antigos romanos: "tradutore, traditore", isto é, a tradução leva a uma traição. Em algum lugar, aparecerá algo que muda o sentido, mesmo porque a língua é dinâmica; com o tempo aparecem palavras novas e algumas mudam de sentido.


O arrependimento proclamado por João Batista, por Jesus e por Paulo de Tarso, é muito mais forte do que o corriqueiro que a toda hora aparece no confessionário sanado com penitências simples. O verdadeiro tem um sentido de transformação dos costumes, dos pensamentos, dos atos e atitudes. É o nascimento do "homem novo". Esse arrependimento, quando chega, banha a alma; desejo intraduzível de tornar-se outro ser. Chega, toma conta; é tão pungente, mas ao mesmo tempo balsâmico. Difícil, quase impossível explicar. Depois que o arrependido descarrega a carga nos braços da Divindade, a pessoa nova criatura é.


Com as traduções do grego para o latim e depois para outras línguas o que em grego significava transformação, passou a ser apenas arrependimento. No grego é "metanóia", isto é, arrependimento com transformação total para não errar mais. No latim, ficou "repenitere" do tipo comum de "me desculpe".


Não sei se o(a) leitor(a) já teve oportunidade de sentir esse arrependimento metanoia, mas posso testemunhar que faz uma grande modificação interior. Pela primeira vez que vi o espírito André Luiz materializado e luminoso a menos de um metro em minha frente e comigo falando com enérgica suavidade de um irmão mais velho mostrando a verdade do Cristo e convidando-me ao trabalho, eu que viera do ateísmo materialista, que era conhecido como o menino, o rapaz e o homem que nunca chorara, fiquei todo o tempo com catadupas de lágrimas silenciosas e com uma alegria imensa, incomensurável e sadia. Um sentimento inexplicável de um arrependimento de um mal do qual não lembrava e saudade de um tempo que eu não vivera. Foi um sentimento bom. Entrei na vida. Creio ser isso a metanoia dos gregos.


Estas lembranças vêm a propósito do sentido da quarta feira de cinzas. Cinzas eram para os hebreus e depois judeus, sinal de arrependimento e de indignação. O cristianismo adotou muitos preceitos hebraicos e, entre eles , as cinzas depois do carnaval, mas não há razão de ser, pois de nada adianta exibir externamente o sentimento de culpa que deve ser no íntimo da criatura. O carnaval passou com seus exageros, mas é o hábito ou tradição do povo e, a cada ano, as pessoas se vão adaptando aos novos exageros superiores aos do ano anterior. Portanto, se houver arrependimento, que seja para nunca mais repetir o gesto, de acordo com o que disse Jesus: "Vá e não peques mais para que te não aconteça coisa pior".


Médico. Escreve às quartas-feiras. e-mail: [email protected]

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