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Julio Capilé

Alegria e tristeza

18 Mai 2016 - 06h00
Uma das reuniões mais concorridas de antigamente, era o velório. Conforme o tipo de defunto era a indumentária e os paramentos para a reunião. Nos cafundós onde morávamos o mais festivo era velório de criança que chamavam de "anjo". No ambiente predominava o tom branco representando a inocência. Velório de homem era preto; de mulher, roxo e de mocinhas, cor de rosa. Os camponeses paraguaios incultos tinham o hábito de fazer baile nos velórios. Os paramentos e vestimentas acima citados, eram quando o responsável tinha alguma possibilidade financeira. Nos ranchos mais pobres, era tudo muito simples e o morto geralmente ficava com a melhor roupa que não diferia muito das demais. Os Brasileiros tinham hábitos diferentes conforme já relatei no O Velório em nosso livro História, Fatos e Coisas Douradenses.


Vamos falar da "cultura" dos paraguaios daquele tempo. Casa ou rancho de pobre, paredes de taipa e coberta de capim, era constituída de uma sala central e um quarto de cada lado. A cozinha ficava no fundo, separada para evitar fumaça na casa. Geralmente era agregado de uma fazenda e situada junto a uma cabeceira pela facilidade de água. Agregados eram chamados os que faziam seu rancho com permissão do dono da terra. No Novilho tínhamos muitos agregados. O velório era com música e baile. Na parte da frente havia os tocadores e o baile com bebidas e tudo que tem direito uma festa. Iniciava à tarde, varava a noite e até a hora do enterro também acompanhado de música. O defunto ficava em uma mesa com quatro velas – sempre quatro- lá no fundo da sala. De vez em quando quem estava dançando ia substituir um dos quatro que velavam o extinto. Lendo os contos de Jorge Amado sobre o fato de haver uma reunião para "beber o morto", creio que era essa a mesma finalidade do baile no velório.



Certa vez no Taquara (hoje município de Juty) chegou no bolicho um vizinho convidando para o velório de gente sua. Estava na vendinha o sanfoneiro que era bom nas polcas e chamamés correntinos. O dono do velório que fora ali só para comprar velas e uma garrafa de pinga, aproveitou e convidou o sanfoneiro. Avisou-o, porém "me desculpe, mas não estou em condições e por isso não vou fazer o baile". Depois que ele saiu o músico disse para João Augusto Capilé, meu pai, dono do bolicho: "Não vou! – o senhor já viu velório sem baile?" e o bolicheiro respondeu "é nunca vi!...?". João Augusto era paranaense e ficava horrorizado com a "cultura" do baile no velório, mas pacificamente dizia "costume é costume".


Na Fazenda Novilho (hoje no município de Caarapó) morreu uma criancinha primogênita de um jovem casal de paraguaios. Fizeram um senhor baile seguido de serenata com o pai tocando violão e cantando. No dia seguinte, outro paraguaio que morava no fundo da invernada Gueicará pediu o defuntinho emprestado, pois estava querendo fazer um baile. Houve o segundo baile e depois outro pediu para o dia seguinte. O dono da fazenda, João Augusto, deu um basta porque o cadáver já estava exalando mau cheiro. O "anjinho" foi trazido e enterrado na cabeceira onde estava o rancho. Tenho a impressão de que se fosse inverno, antigamente muito rigoroso na região, talvez passassem uma semana a festejar o anjinho pois era tempo de fartura pela elaboração de erva mate.


Médico. Escreve às quartas-feiras. e-mail: [email protected]

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