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Opinião

A qualidade oculta

25 Jan 2016 - 10h47
Davi Roballo

Em minha infância tive a oportunidade de conviver com o maior contador de causos e estórias que conheci. Esse homem foi meu pai. A estória abaixo ouvi de sua boca, e na minha forma de escrever transcrevo-a.
Numa determina cidade chinesa da Dinastia Ming, havia duas mulheres de personalidades totalmente opostas, que marcaram aquela cidade e cujas estórias uniram-se em uma lenda urbana.


Madame Yin era uma pessoa de agradável convívio, jamais foi vista triste ou desferindo palavras de desencorajamento a alguém, ao contrário, pois o otimismo e amabilidade pareciam brotar de sua pele. Era tão querida nessa cidade pela capacidade de transformar um luto familiar em algo leve e aceitável através de seus discursos suaves e confortantes que proferia nos atos fúnebres, quando enaltecia todas as qualidades do falecido, qualidades que quase ninguém percebia, mas que no momento em que Madame Yin os tirava do anonimato todos davam-se de conta que ela estava correta.


Madame Yang foi uma senhora muito amargurada com a vida, vivia em pleno mau humor. Muito rica, tinha inúmeros empregados que pouco via, todos evitavam cruzar por ela, pois os maltratava com palavras ásperas. Nunca recebia visitas a não ser as esporádicas de Madame Yin, que mesmo sob ultrajes tomava chá com Madame Yang, pois sabia que ela ainda não havia superado a profunda dor de ter perdido os filhos e o marido num grave acidente na mina da família. Diferentemente de Madame Yin, a cidade com o tempo esqueceu-se da tragédia e passou a ver em Madame Yang apenas uma megera.


No dia em que Madame Yang faleceu, as apostas correram a cidade. Uns apostavam dinheiro na possibilidade de Madame Yin nem comparecer nos atos fúnebres, pois não haveria sequer uma qualidade a ser enaltecida. Outros apostavam que Madame Yin compareceria mas não abriria a boca.


No dia do enterro, a cidade toda estava no cemitério, mas não estavam lá para oferecer as despedidas a Madame Yang e sim para curiosamente saber qual seria a reação de Madame Yin, pois muito dinheiro estava em jogo nas apostas que envolveram praticamente todos os habitantes.


Madame Yin posicionou-se ao lado da cova e quieta observava o trabalho do coveiro, enquanto um burburinho tomava conta do local entre alguns que se julgavam ganhadores da aposta.


O caixão desceu lentamente até o fundo da cova e a terra começou a cobri-lo a cada movimento que o coveiro fazia com a pá. Na última porção de terra jogada sobre o caixão de Madame Yang, para surpresa de todos, entre soluços incontidos de Madame Yin, dois filetes de lágrimas desceram de seus olhos, enquanto ela falava, “o passamento de madame Yang é algo irreparável para esta cidade, pois não se tem notícias de ter vivido entre nós pessoa tão generosa quanto ela”.


Ao ouvir isso, a multidão protestou, até que um habitante mais exaltado disse: “a senhora deve de estar de brincadeira, essa mulher sequer saiu de sua casa nesses últimos 35 anos, pois tinha horror às pessoas, não gostava de tocar e nem de vê-las. Explique-se melhor, Madame Yin!”.


Madame Yin retirando seu óculos secou suas lágrimas com um lenço e calmamente disse a todos: “Nossa cidade tem dois hospitais, dois orfanatos, dois asilos e duas escolas, instituições que há mais de 30 anos são financiadas por um doador anônimo. Pois bem, meus amigos, quero informá-los que o doador anônimo sempre foi Madame Yang e sua fortuna ainda poderá mantê-las por mais seis meses, depois disso a responsabilidade financeira é nossa”.


Varias décadas passaram depois que ouvi essa estória, e as palavras de meu pai ao encerrá-la ainda vivem claras em minha mente: “Não julgue ninguém por seus defeitos, pois atrás destes pode haver uma qualidade que pode compensar um milhão deles que aparecem em um primeiro plano. Até mesmo o mal tem qualidades, entre elas está a capacidade de instigar-nos a vencê-lo”.


Jornalista, Especialista em Comunicação e Marketing / Especialista em Jornalismo Político. e-mail: [email protected]

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