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João Carlos Silva

A obra do Quinzinho pede socorro

08 Mar 2016 - 08h57
João Carlos Silva

O nosso Mato Grosso do Sul talvez seja o único Estado da Federação em que é preciso manifestações para que sua história seja mantida viva e não destruída. Acompanhando de perto essa densa movimentação em que todos abraçaram a causa da Água Rica, um marco gastronômico e cultural que poderá não estar mais de pé caso a CCR VIAS teime em realizar a duplicação da rodovia no seu km 412 passando sobre as nascentes de água dentro da mata e do pátio onde se encontra o restaurante, destruindo as nascentes e descaracterizando o lugar.


Quem foi o criador da obra já não está mais entre nós. Era o "seo" Quinzinho de todos os amigos e que enriqueceu o restaurante Água Rica com um pão de queijo único com boa prosa e comida de excelência. É triste acompanharmos esse caso em se tratando de cultura e memória sul-mato-grossense. Nas Minas Gerais a Estrada Real é quase igual ao que confrontamos hoje.


Muitos lugares curiosos e interessantes e que valorizam a gastronomia, a cultura, a memória e o turismo. São locais onde é proibido mudar uma pedra de lugar. Aqui já não é assim. O mecanismo das redes sociais está envolvido na causa e recentemente li um texto da lavra do consultor Sergio Maidana em que enfocava o direito do cidadão do estado e da CCR Vias que teimava em mudar a curva da história. Mais de cinco mil pessoas evocaram o texto de alta qualidade. Homens públicos que conhecem o lugar também se manifestaram abertamente para conterem o avanço do progresso rumo a destruição da história.


Agora, o deputado federal Carlos Marun (PMDB) vai abreviar a angustia de todos que não desejam a Água Rica descer rio abaixo. Em Brasilia convocou o pessoal da ANTT e da CCR para chegarem em um acordo prevalecendo o bom senso sem mexer na estrutura da obra que " seo" Quinzinho tão bem ergueu. Outro que capitaneou um verso em prosa para o significado do lugar e teve milhares de visualizações em sua rede social foi o militar José Augusto de Castro Bernardes que levantou numa manhã em busca de uma boa brisa e foi se deparar com a Água Rica tornando-se seu mais ferrenho defensor.


Essas histórias todas fazem parte da vida cotidiana de quem viaja e aprecia os quitutes do local que tem excelência no servir e qualidade em atendimento. Não se trata mais de um comércio e sim de um patrimônio estadual. Se tivéssemos uma determinante para o segmento do turismo com certeza a criação de Quinzinho já estaria ganhando láureas mundo afora. Como não temos e somos verdadeiros passos de tartaruga no quesito em questão, cabe a dor do choro e do vazio da alma caso algo de ruim possa vir acontecer com a estrutura da Água Rica. Se por lá estivessem passado Mário Quintana, Fernando Sabino, Gilles Lapouge entre outras personalidades das letras com certeza o tratamento seria outro.


O fogão de lenha que produz doces da melhor espécie e que trazem junto o café quente com um bolo ou um pão de queijo de alto refinamento rural podem dar lugar para uma dessas estradas que lá na frente vão dar o dissabor do pedágio sem direito ao lanche genuinamente regional. No comentário do jornalista Juliano Vaka, um expoente em mundo moderno, ele disse que: Salvem o nosso pão de queijo de cada viagem! Correta sua avaliação para o momento. É um caso que não pode ser levado para frente pois árvores históricas serão destruídas por máquinas ávidas em prosseguir com o desenvolvimento.


A história e a memória de um povo estão no fio da navalha. Seria preciso toda essa manifestação para que o lugar seja preservado se o governo fosse enérgico com a concessionária? Acredito que não. O charme do lugar em que está a obra do Quinzinho mostra o nosso Mato Grosso do Sul na sua essência e também demonstra a simplicidade da sua gente. Já perdemos tantas coisas ao longo do tempo destruídas pelo progresso que nossa memória acaba rabiscando apenas alguns pontos perdidos no tempo.


Se conseguirmos preservar a Água Rica vamos dar continuidade a história construída anos atrás pelo "seo" Quinzinho , um homem que dedicou sua vida para o lugar pensando sempre em bem servir sua gente com a produção da cozinha do seu estabelecimento. São coisas simples assim que dignificam um estado dando identidade cultural ao seu povo. A história e a memória do Mato Grosso do Sul não podem ficar reféns do progresso e do desenvolvimento. Soterrar o passado é abolir o presente e se ajoelhar ao futuro. Nós não precisamos disso.

Articulista e consultor. e-mail: [email protected]

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