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Wilson Valentim Biasotto

A cordialidade é substituída pelo ódio

12 Mar 2016 - 06h00
Wilson Valentim Biasotto


Foi-se o tempo em que se podia concordar com a tese do emérito professor Sérgio Buarque de Holanda sobre a cordialidade do povo brasileiro. Talvez quando escreveu Raízes do Brasil em 1936, ou ainda, na segunda edição, de 1947, ainda houvesse razões suficientes para essa tese ser consagrada ao lado de Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, escrita em 1933. O Brasil, naqueles tempos, ainda era constituído por uma sociedade rural, a classe média era incipiente e o modo de pensar capitalista ainda não estava tão arraigado como nos tempos atuais.


Hoje a população brasileira é predominantemente urbana e os conflitos se avolumam. Torcidas fanatizadas brigam por um time de futebol, religiões se digladiam, mulheres são discriminadas, etnias são marginalizadas e embora possamos dizer que existem apenas duas classes sociais (a que vive do trabalho, a dominada) e a que vive do capital, a dominadora), existe uma serie de categorias que não conseguem mais uma coexistência harmoniosa. A casa grande não interage com a senzala. E, ainda, algumas categorias formam o que se convencionou chamar "classe média", uma massa que não se enxerga, que pensa como classe dominante embora lhe seja inteiramente submissa.


Ainda nessa semana, um bispo-auxiliar de Aparecida conclamou o povo a pisar na cabeça da jararaca, ou seja, incitou o ódio. Felizmente, se Deus é brasileiro, o papa é argentino e, no dia seguinte, transferiu o referido bispo, uma forma discreta de repreensão. Mas esse é apenas um exemplo. O ódio está se disseminando no país que era muito mais fraterno. Meios de comunicação passam ao público notícias parciais que levam à intolerância.
E essa onda de ódio não se realiza apenas em nosso país; nos Estados Unidos e na Europa, não obstante tantos esforços de governantes democráticos, a discriminação é uma triste realidade.


Uma vez, há uns vinte anos, em aula expositiva, lembro-me de ter dito, em determinado contexto, que "o neguinho tinha que tomar providências". Um aluno, replicou-me: "o neguinho e o branquinho também, não é professor? ". Ele era casado com uma negra e eu, que nunca tive preconceitos de raça, credo ou opção sexual, vi-me na obrigação de desculpar-me. Atualmente, precisamos medir exatamente as palavras que proferimos. O que não for politicamente correto não pode ser dito. Mulheres recusam-se a receber votos de parabéns pela passagem do dia internacional das mulheres porque na verdade esse dia é dia de luta. Os negros não comemoram mais o 13 de maio, mas o dia da consciência negra, os louvores são para Zumbi, não para a princesa Isabel. Quero dizer que, de um lado, estamos caminhando para um processo de civilidade, mas, por outro, o país vive um clima de insegurança jamais vista.


A Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã, instituiu o Ministério Público e nós aplaudimos, porque, enfim, haveria uma Instituição para preservar o patrimônio, evitar a corrupção, proteger o cidadão. Menos de trinta anos após a sua criação, o que verificamos são desvios de conduta de alguns promotores, transformados em poderosos chefetes. Claro que essa ação onipotente é exceção à regra, mas se todo o cidadão pode ser investigado, quem pode investigar o promotor? Quem pode investigar o juiz? Quem pode, senão membros da mesma corporação?


Um ex-presidente é investigado e humilhado. Mas quem contesta os salários astronômicos de alguns juízes? Um ex-presidente não pode ter um barco de lata, mas um juiz do Supremo pode comprar uma casa em Miami. E os meios de comunicação, ligados ao neoliberalismo, ignoram ou mancomunam-se com essas coisas. Um ex-presidente é investigado à exaustão, outro ex não, é intocável.


Julgamentos injustos, um jornalismo parcial, uma classe dominante que consegue mistificar, principalmente a "classe média", alimentam o ódio. Adeus cordialidade, a sociedade brasileira está dividida, nem a civilidade prevalece. O neofascismo renasce como a fênix. Muitas pessoas perderam completamente a compostura, pessoas de partidos estigmatizados pela mídia são agredidos em restaurantes e mesmo nas ruas. Na Internet, nem se fala, posta-se mentiras, fotos montadas, xinga-se pessoas de bem, o ódio está sendo alimentado a cada dia.


É lamentável, pois todos temos o direito do livre pensar, e penso que só o amor constrói.

Membro da Academia Douradense de Letras. e-mail: [email protected]

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